1916-1917 – Em meio ao horror da Primeira Guerra Mundial, na qual os países europeus se dilaceravam e a Revolução Bolchevista, na Rússia, impunha o ateísmo a outras nações, em Fátima, Portugal, o Anjo da Paz e Nossa Senhora traziam, através de três pastorinhos, uma mensagem de paz e esperança.

Portugal vivia uma terrível crise política e social. A população, na maioria de camponeses, já não tinha esperança. Os governos sucediam-se uns aos outros e nenhum era capaz de solucionar os problemas que afligiam a nação. Diante disso, o povo já não confiava mais em seus governantes.

A Igreja era perseguida pelas autoridades, que procuravam incutir o ódio ao catolicismo. Já em 1911, o chefe do governo, Afonso Costa, aprovou uma lei cujo conteúdo referia-se à separação entre a Igreja e o Estado e declarava: “Graças a essa lei, dentro de duas gerações Portugal conseguirá eliminar completamente o catolicismo”. Também as crianças nas escolas sofriam opressão; eram obrigadas a desfilar pelas ruas com cartazes em que se lia: “Nem Deus, nem Religião”.

E foi assim que, em 1917, Nossa Senhora apareceu a três humildes pastores. Três crianças, absolutamente normais, como qualquer outra, cuja única responsabilidade era apascentar o rebanho da família.

Lúcia, a mais velha, tinha 10 anos, era muito delicada e terna, adorava crianças. Talvez por isso essas se apegassem a ela com facilidade.

Francisco, primo de Lúcia, tinha 9 anos, adorava a natureza e passava horas a tocar o pífaro (flauta simples).

Jacinta, irmã de Francisco, tinha 7 anos e era muito ligada a Lúcia, tinha por ela uma profunda amizade. Muito sensível, adorava ovelhas, cordeiros, flores, estrelas e gostava de dançar. Não admitia mentiras, e mesmo à custa de algum sacrifício, sempre dizia a verdade. Gostava muito de rezar.

E foi a essas três crianças que Nossa Senhora se dignou a aparecer, para que o mundo voltasse a ter esperança e paz.

Fátima está situada nos contrafortes da Serra de Aire, 300 metros acima do nível do mar. Pertence ao concelho de Vila Nova de Ourém.

A cerca de um quilômetro de Fátima fica Aljustrel, a pequena aldeia onde nasceram os três pastorinhos. Para o ocidente, próximo de Aljustrel, ergue-se a Loca do Cabeço, local onde, em 1916, o Anjo apareceu duas vezes. Dois quilômetros a oeste de Fátima localiza-se, entre tantas outras, uma depressão chamada Cova da Iria, lugar onde Nossa Senhora apareceu cinco vezes. Entre Aljustrel e a Loca do Cabeço, localiza-se o pequeno vale chamado Valinhos, sítio onde a Virgem apareceu uma vez.

Aparições

Primavera de 1916, Loca do Cabeço – Era um dia chuvoso e os três pastorinhos procuravam abrigo entre as rochas. Quando o tempo melhorou, continuaram no mesmo lugar. Então do Oriente veio uma luz estranha, que se aproximou deles. Quando a luz chegou perto, observaram que ela tinha a forma de um jovem de 14-15 anos muito belo, branco como a neve e transparente como o cristal. O jovem se apresentou como o Anjo da Paz e, inclinando o rosto até o chão, pediu que rezassem com ele a seguinte oração: “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam.”. E retirou-se.

Verão de 1916 – Dois meses depois, estavam as três crianças junto ao poço situado atrás da casa de Lúcia, quando o Anjo novamente lhes apareceu. Dessa vez, pediu que rezassem muito e que constantemente oferecessem ao Altíssimo orações e sacrifícios. E assim, a partir daquele dia, rezavam com frequência a oração ensinada pelo Anjo e ofereciam sacrifícios a Deus.

Outono de 1916 – Estavam os três pastorinhos na Loca do Cabeço, prostrados em terra, rezando a oração que o Anjo lhes havia ensinado, quando uma luz os envolveu. Era novamente o Anjo, que dessa vez trazia nas mãos um cálice e sobre ele uma hóstia, da qual pendiam gotas de sangue. Deixando o cálice e a hóstia suspensos no ar, prostrou-se também por terra e pediu que rezassem três vezes a seguinte oração: “Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os Sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Sacratíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.”. Ao final, levantou-se, tomou o cálice nas mãos, deu a Hóstia a Lúcia e o conteúdo do cálice a Francisco e Jacinta e disse que eles recebiam o “Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos”. Novamente prostrou-se por terra e, junto com as três crianças, repetiu a mesma oração. E desapareceu.

13 de maio – Era um dia ensolarado. Os pastorinhos dirigiram-se com seu rebanho à Cova da Iria, fizeram seu lanche e, enquanto as ovelhas pastavam, puseram-se a brincar. De repente, viram um clarão, como um relâmpago. Decidiram voltar para casa. No caminho de volta, viram sobre uma pequena azinheira uma senhora, vestida de branco, mais brilhante que o sol. Quando Lúcia lhe perguntou quem ela era, a senhora respondeu-lhe que não revelaria ainda quem era e o que queria e lhes perguntou se queriam suportar os sofrimentos que lhes fossem enviados para reparação dos pecados com que Jesus é ofendido. Lúcia respondeu que sim, e a Virgem pediu que rezassem o Terço todos os dias para alcançar a paz para o mundo e o fim da guerra. E a senhora elevou-se até desaparecer. As crianças ficaram ali por um longo tempo. Por fim, antes de retornar para casa, combinaram que a ninguém contariam o que acontecera. Entretanto, Jacinta, ainda encantada com a beleza daquela senhora, revelou o que ocorrera a sua mãe. A partir daí, tanto as crianças quanto suas famílias passaram por muitas humilhações e sofrimentos.

13 de junho – A notícia da aparição se espalhou, as crianças começaram a ser maltratadas. E novamente nesse dia, na Cova da Iria, a Senhora voltou a aparecer e pediu que no dia 13 do mês seguinte eles retornassem e que continuassem a rezar o Terço. A Senhora disse ainda que em breve levaria Jacinta e Francisco para o céu. Quanto a Lúcia, ficaria ainda na terra para difundir a devoção ao Imaculado Coração de Maria, tão ofendido. A Virgem prometeu a Lúcia que ela não ficaria sozinha e que Seu coração seria o refúgio seguro. Abrindo as mãos, mostrou um coração cercado de espinhos.

13 de julho – Ultrajados, os pastorinhos passaram por muitas dificuldades. Muitos diziam que tudo aquilo era “obra do demônio”. Entretanto, nessa data, Nossa Senhora apareceu e lhes disse que Ela vinha do céu e pediu que rezassem o Terço todos os dias. Lúcia lhe pediu que fizesse um milagre, para que todos acreditassem. A Senhora respondeu que em outubro diria quem era e o que queria e que faria um milagre para que todos acreditassem. Ainda nessa aparição, Nossa Senhora falou sobre a necessidade da oração pela conversão dos pecadores. E lhes mostrou uma visão do inferno, lugar para onde vão todos aqueles que não forem salvos. Nossa Senhora revelou ainda que viria pedir a consagração da Rússia ao Seu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. E a Senhora ensinou a oração para ser recitada ao fim de cada mistério do Terço: “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as almas todas para o Céu e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem”.

19 de agosto – A notícia das aparições já tomava grandes proporções, a imprensa noticiava a incapacidade das autoridades de desvendar a “farsa” da Cova da Iria. Diante dessa situação, o presidente da câmara de Vila Nova de Ourém, no dia 13 de agosto, levou os três pastorinhos para a sede do concelho, onde foram pressionados com sofríveis interrogatórios, sendo reconduzidos para suas casas somente no dia 15 daquele mês. No dia 19, as crianças apascentavam o rebanho em Valinhos, quando perceberam os sinais da presença da Virgem. Ela lhes apareceu pousada numa carrasqueira. Confirmou o milagre que faria em outubro, falou sobre a construção de uma capela na Cova da Iria e tornou a pedir orações e sacrifícios pelos pecadores.

13 de setembro – Muitos achavam que as aparições eram uma “farsa”; entretanto, muitos acreditavam e, nesse dia, cerca de 25.000 pessoas estavam presentes na Cova da Iria. A Senhora tornou a pedir a oração do Terço e confirmou que, na aparição seguinte, faria o milagre para que todos acreditassem.

13 de outubro – Já no dia 12, todos estavam muito apreensivos e alguns aconselhavam que tudo fosse desmentido pelas crianças. A mãe de Lúcia temia pelo pior, caso o milagre não acontecesse, pois muitas pessoas já se dirigiam para o local. No dia 13, cerca de 70.000 pessoas estavam presentes na Cova da Iria. Além de devotos e curiosos, também a imprensa estava ali. Choveu torrencialmente até o momento da aparição. Por volta do meio dia, Lúcia gritou para que todos se calassem, pois Nossa Senhora estava chegando. Lúcia lhe perguntou o que Ela queria, e a Virgem lhe disse: “Sou a Senhora do Rosário. Quero dizer que façam aqui uma capela em minha honra. Continuem a rezar o Terço todos os dias. A guerra vai acabar.”. Lúcia apresentou muitos pedidos a Nossa Senhora, que prometeu atender alguns, outros não, pois muitos ainda precisavam se arrepender. Ao se despedir, abriu as mãos e as fez refletir no sol, e enquanto se elevava, o reflexo de sua própria luz continuava a projetar-se no sol. Outras visões se sucederam ao lado do sol: São José com o Menino Jesus e Nossa Senhora; Jesus e Nossa Senhora das Dores; Jesus que abençoava o mundo; Nossa Senhora do Carmo. Lúcia pediu que todos olhassem para o sol. E aqui aconteceu o que ficou conhecido como “milagre do sol”. Podia-se olhar para ele sem dificuldade alguma. E, de repente, com vários movimentos bruscos, “o sol bailou” (expressão típica dos camponeses). E o milagre aconteceu: o sol dançou em todas as direções e, em determinado momento, parecia destacar-se do céu e cair sobre a multidão como uma enorme roda de fogo, o que apavorou a muitos que rogavam a misericórdia de Jesus e de Nossa Senhora. Por fim, o sol parou em seu lugar e o incrível havia acontecido: o lugar e as pessoas que havia poucos instantes estavam encharcados pelo temporal, agora estavam totalmente enxutos.

Assim terminaram as aparições em Fátima.

Como Nossa Senhora havia declarado, Francisco e Jacinta logo foram levados para o céu.

Francisco adoeceu em outubro de 1918. Mesmo doente, continuou a oferecer sacrifícios a Jesus, ofendido por tantos pecados. Ainda não havia feito a Primeira Comunhão e muito queria receber a Eucaristia. Assim, confessou-se e teve o seu primeiro e último encontro com “Jesus escondido”, como costumava dizer. Foi para o céu no dia 4 de abril de 1919.

Jacinta adoeceu um ano após as aparições; sofreu muito com sua enfermidade. Internada no hospital de Vila Nova de Ourém, oferecia todo o seu sofrimento pela conversão dos pecadores. Em fevereiro de 1920, foi internada em um hospital em Lisboa e sofria por pensar que morreria longe dos pais e de Lúcia. Entretanto, seu consolo era que tudo oferecia pela conversão dos pecadores. Ainda no hospital, foi visitada três vezes por Nossa Senhora e ali falou sobre assuntos elevados demais para sua idade: sobre sacerdotes, médicos, governantes, perseguidores da igreja, obediência dos religiosos, com palavras que certamente vinham de Deus. Jacinta foi para o céu no dia 20 de fevereiro de 1920.

No dia 12 de março de 1952, os restos mortais dos dois pastorinhos foram colocados em uma capela lateral do Santuário de Fátima. O processo de beatificação dos Videntes de Fátima foi iniciado em 1952 e concluído em 1979. A documentação final foi entregue ao então Papa João Paulo II, hoje São João Paulo II, que os declarou beatos em 13 de maio de 2000.

Lúcia, responsável por propagar a devoção ao Imaculado Coração de Maria, deixou Aljustrel e foi para o colégio das Irmãs Dorotéia. Foi em Pontevedra, na Espanha, que, em 1925, Nossa Senhora mais uma vez lhe apareceu para explicar a devoção dos cinco primeiros sábados, em desagravo ao Seu Imaculado Coração.

Lúcia foi para o céu em 13 de fevereiro de 2005. Seus restos mortais se encontram na Basílica do Santuário, ao lado do túmulo de Jacinta.

 

 

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