Ir. Martina Braga OSB [1]


            Durante alguns anos da minha juventude, vivi com a minha família numa diocese extremamente liberal no Brasil. Algumas das coisas que vi acontecer na vida litúrgica da minha paróquia são hoje difíceis de relatar, pelo simples motivo de que os meus ouvintes não acreditam no que eu digo! Já fiz a experiência várias vezes. A maioria das pessoas acha que eu estou exagerando ou inventando um absurdo.

            Para evitar essa reação, eu me atenho geralmente a um episódio único, muito concreto, que ficou marcado na minha memória como uma profunda lição de espiritualidade. A história ocorreu numa missa normal de domingo quando eu devia ter uns catorze anos. No começo da celebração o pároco anunciou que essa seria uma ‘missa dos pobres’ e que quem não se fizesse ‘pobre com os pobres’ se sentiria fora de lugar. Como meus bons pais sempre me tinham ensinado a estar à vontade em qualquer ambiente – para eles, isso queria dizer encontrar as pessoas na sua humanidade, fosse qual fosse a sua posição social – eu achei que não precisava me preocupar.

            Ao meu lado, no banco da igreja, estava a Dona Maria. Ela era um marco histórico da paróquia, uma senhora velhinha cuja idade nem ela mesma conhecia. A Dona Maria não sabia nem ler nem escrever, morava numa casa com chão de terra e, viúva, tinha criado sozinha os oito netos que a filha e o genro, mortos num acidente, tinham-lhe deixado. Com meio metro de altura, uma pele maravilhosa, cor de ébano, uma ferida varicosa incurável na perna – o que não lhe impedia de caminhar os quatro quilômetros até a Missa – e um coração de ouro puro, a Dona Maria possuía uma sabedoria dessas que Deus dá aos ‘pequenos e humildes’, como disse Nosso Senhor.

            Depois de uma liturgia profundamente ideologizada, que nem eu nem a Dona Maria conseguimos compreender bem, chegou a hora da comunhão. O pároco distribuiu as hóstias consagradas em vasilhas usadas e encardidas – algumas quebradas – de plástico de cozinha. A Dona Maria e eu comungamos obedientemente. No fim da Missa, o padre fez um longo discurso numa terminologia que só uns poucos iniciados entenderam, e explicou que as vasilhas de plástico queriam dizer “ser pobre como os pobres”.

            Nesse momento eu vi lágrimas de prata escorrendo pelo rosto negro da minha velha amiga. Receosa de que alguma coisa tivesse acontecido, eu segurei a sua mão e perguntei-lhe o que tinha. Depois de alguns minutos de silêncio, as lágrimas prateadas rolando como cascata, ela me segredou baixinho:

            ‘Você sabe, menina, eu sempre fui muito pobre. Mas nunca fui suja nem impertinente. Quando o pároco me visita, eu sirvo o café dele na minha única xícara de porcelana, que a minha avó ganhou da sinhá, quando ainda era escrava. E eu ponho na mesa a toalha mais limpa. O pároco aceita. Mas olha como ele serve Nosso Senhor…’

            Eu nunca esqueci essas palavras. A Dona Maria faleceu não muito depois. Eu me tornei professora, fiz faculdade, mestrado e doutorado. E, no entanto, a lição que a Dona Maria me deu, com a sua sólida sabedoria, me valeu muitos dos meus livros. Eu sempre imagino que ela sorri lá do céu. 

            Acompanhando as notícias do recente Sínodo da Amazônia, as palavras e as lágrimas da Dona Maria pareceram martelar a minha consciência. Em um certo momento do Sínodo, o famoso bispo austríaco, Erwin Kräutler, missionário há muitos anos na Amazônia, declarou solene e peremptoriamente – ah, lembranças do meu pároco… – que os índios não podem entender, e muito menos viver, o celibato sacerdotal. Conclui-se, portanto, que é impossível para eles ser ou conviver com sacerdotes segundo as normas sacramentais da Igreja. Tem que haver uma nova forma de ‘liderança comunitária’, feita por homens e mulheres casados, que tomem o lugar do padre.

            Algumas horas depois, levantou-se na aula sinodal um sacerdote peruano. Bastava olhar para ele – como basta olhar para a esmagadora maioria dos padres peruanos, mexicanos, equatorianos ou paraguaios – para ver que se tratava de um índio no duro e não de alguém, como o bispo austríaco, ‘falando pelos índios’.

            O sacerdote tomou a palavra, com seriedade e discrição – ah, a minha Dona Maria… – e fez observações nesse sentido: ‘Eu sou cem por cento índio. Vivo numa cultura mestiça, mas não há em mim nenhum outro sangue que não seja o do índio da região da Amazônia peruana. E, no entanto, eu compreendo, amo e me esforço por viver o celibato. Não é fácil… mas não porque eu sou índio. Não é fácil tampouco para o Senhor Bispo, nem para os europeus missionários e nem para nenhum sacerdote do mundo, seja ele de onde for. O celibato só pode ser vivido com a graça de Deus. Eu creio que o problema aqui não é que os meus índios da Amazônia não possam entender o celibato, mas sim que os missionários europeus parecem não querer viver o celibato…’

            O meu coração exultou como se eu ainda tivesse os meus quinze anos! Acho que se eu estivesse presente na aula sinodal, eu tinha beijado a mão do padre, assim como naquela época remota eu beijei a mão da Dona Maria. A verdade tem esse efeito. Ela liberta, alegra, traz de novo paz e sentido ao mundo. E ela é mais discreta do que os gritos ideológicos.

            Na sua visita ao Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em 2013, o Papa Francisco conclamou o povo católico a ir às periferias, a buscar aqueles que estão isolados e necessitados. No entanto, ele sublinhou, o objetivo não é ficar na periferia. O objetivo é trazer as pessoas que sofrem de volta à sua dignidade de filhos de Deus e ao convívio social pleno.

            A questão que o Santo Padre sempre enfatiza é que é necessário um contato direto e pessoal com os outros. Ajudar implica em primeiro lugar interessar-se, conhecer, abrir-se à pessoa do outro, mesmo aprender com ele. Só então é possível amar de verdade, e só amando é possível ajudar realmente. A famosa admoestação do Papa, de que o pastor deve cheirar a ovelha, é profundamente autêntica. A gente reconhece a pessoa dedicada a sua vocação pelos traços que ela passa a trazer em si mesma, vindos do seu contato próximo com aquilo que ela faz.

            No entanto, o Papa diz que o pastor deve cheirar a ovelha, não virar ovelha. O pastor ama, conhece, vive com as ovelhas. Mas permanece pastor. Se não for assim, ele já não serve às ovelhas. Um médico que se interesse tanto pela doença que já não quer curá-la não é mais médico. Um cidadão que já não se importa com a corrupção na sua sociedade já não é mais bom cidadão. Um missionário que prega uma ideologia e não a fé em Jesus Cristo e na Sua Igreja não é mais missionário.

            Trata-se então de impor a fé aos outros? O nosso dever é sair pelo mundo corrigindo as pessoas que encontramos, como se nós fôssemos perfeitos? Obviamente que não. A liberdade é um presente de Deus sem o qual, a rigor, ninguém pode chegar até Ele. Nós não somos absolutamente ninguém para julgar, impor ou exigir. A nossa única missão, imitando o Cristo, é dar-nos, deixando que a luz de Deus passe através de nós, sobretudo pelo nosso exemplo. Não se trata de afirmar-nos a nós mesmos, como nos lembrava o Papa Bento XVI no discurso inaugural do seu pontificado, mas de submeter-nos humildemente à Verdade de Deus, superior a nós. 

            O missionário não é em si mesmo, portanto, um reformador social, um político, um antropólogo interessado em culturas diversas. O missionário é aquele que se aproxima dos outros para ajudá-los a descobrir a Beleza, a Justiça, a Verdade e o Consolo de Deus. Nele abunda o Amor de Deus de tal forma que ele irradia esse Amor aos outros. E isso se dá em todo lugar, desde a Amazônia até a roda de amigos.

            O desrespeito à liberdade individual é tomado hoje como argumento definitivo da condenação do trabalho missionário E, no entanto, não é este mesmo desrespeito que vemos acontecer, às vezes brutalmente, na nossa assim chamada tolerante sociedade moderna? Uma mentalidade reducionista que despreza aqueles que não se comportam segundo a moda, que não vivem de acordo com os valores da propaganda, que não seguem à risca o modo de pensar, de vestir, de falar, de planejar a vida, que a sociedade secularizada impõe? A ditadura do relativismo, como dizia ainda o Papa Bento XVI, determina uma tirania social. Coitada da jovem que, hoje em dia, é um pouco mais gordo, tem um maior número de filhos, vai à Igreja, acha que a honestidade é mais importante do que assegurar o emprego no governo ou não segue com exatidão a filosofia de vida ditada pela carreira na firma multinacional…      

            A mentalidade secularizada só aceita o trabalho missionário se ele for entendido como promoção social – coisa que é, na verdade, consequência e não essência dele. Essa mentalidade atribui às culturas um valor absoluto: os costumes externos tomam o lugar da busca individual da verdade. Evangelizar o índio se torna, portanto, um desrespeito ao índio. Obviamente isso ocorre porque aqui ele é visto em primeiro lugar como índio e depois como ser humano, dotado de liberdade e consciência. A fé cristã, ao contrário, vê nele em primeiro lugar um homem como todos os homens, que por acaso é índio. Podia ser europeu, africano ou asiático. É homem chamado por Deus para a vida eterna, como todos os outros.

            O relativismo no fundo contradiz a si mesmo. Se tudo é relativo, tampouco faz muito sentido o trabalho humanitário. Por que deveríamos ajudar os necessitados? Há culturas antiquíssimas nas quais o homem trata as suas várias mulheres como animais. É a cultura desses povos, deve-se então respeitá-la. Há sociedades nas quais a pedofilia e o tráfico sexual são prática comum. Nada se pode fazer. Há países, como o Brasil, onde a corrupção e a desonestidade se tornaram o modus vivendi de grande parte das pessoas. Inútil rebelar-se ou acusar o mal. Há meios urbanos modernos nos quais a adição à droga e outras práticas profundamente degradantes são o dia-a-dia dos jovens. É deixá-los morrer e serem mortos. Não há mais bem nem mal. Nesse sentido, o sistema judiciário acabaria sendo abolido. Que sentido faz julgar um crime? Tudo é uma questão relativa, não há mais criminoso nem vítima.

            A história da Igreja nos dá muitos exemplos de trabalho missionário que se confundiu com esforços de colonização política e material. É óbvio que isso é um erro – e os santos de todas as épocas assim o afirmavam. O missionário não pode ser um colonizador. Não pode usar a situação do outro para fomentar os seus próprios interesses materiais. Não pode impor. Mas tampouco pode mentir. E também não pode usar a situação do outro para fomentar os seus próprios interesses ideológicos.

            Geralmente são justamente aqueles que gritam ideologicamente em favor do respeito à cultura alheia os primeiros a contrariar o seu próprio preceito. Assim como o meu pároco que tomava café na porcelana do pobre mas servia a Comunhão no plástico sujo da casa do rico. Ele não conhecia o pobre. Pobre era a minha Dona Maria, limpa, genuína, verdadeira e piedosa.

            O bispo europeu diz que os índios não são capazes de entender o celibato. Por quê? Os índios não são pessoas humanas assim como os europeus? Se eles entendem, por que os índios não podem entender? Isso se parece à ofensa feita a minha Dona Maria, de dizer que, porque ela é pobre, é suja. O índio e o pobre estão aqui sendo manipulados.

            Os primeiros cristãos entendiam com muita clareza que o determinante não é a condição social, a cultura, a língua ou a origem, mas sim a fé em Cristo. Uma conversão implica necessariamente numa mudança na alma e no coração. E essa mudança individual influencia inexoravelmente a conversão da sociedade. Um cristão verdadeiro espalha ao redor de si justiça, paz, solidariedade, respeito, fidelidade, coragem, honestidade, simplesmente por ser quem é. Foi assim que os cristãos converteram o Império Romano. Sendo mártires, ou seja, testemunhas.

            Onde podemos buscar o melhor exemplo de trabalho missionário? Nos santos? Certamente. Houve e há grandes missionários. Mas os santos, sendo humanos, têm sempre falhas. O exemplo perfeito? Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele, sendo Deus, fez-se homem, em tudo igual a nós. Desceu da sua divindade e nasceu num estábulo cheirando a estrume. Cresceu, trabalhou, viveu numa família, morou numa região dominada pela violência, sofreu privações, cansou-se, chorou, sangrou e morreu como nós. Foi pobre com os pobres, homem com os homens, judeu com os judeus.

            E para quê? Para nos fazer apenas companhia na nossa miséria? Um miserável a mais? Não. Ele fez-se um de nós em tudo, mas uma coisa ele não compartilhou conosco. O nosso pecado. Para redimir-nos da nossa própria ingratidão e infidelidade contínua, Ele curou, ensinou, perdoou. E desceu então ao mais profundo da natureza humana, à dor, à tortura e à morte, para com a sua ressurreição abrir-nos o caminho da vida eterna. Ele se fez igual a nós para resgatar-nos, que fazer-nos iguais a Ele. Ele veio à periferia, conheceu-a, viveu nela, para tirar-nos dela.

            O Natal, agora próximo, lembra-nos esse fato essencial da História humana. Que a contemplação da Encarnação do Senhor nos confirme na nossa vocação de missionários, seja ela onde e como for, numa doação autêntica até o fim das nossas vidas.

            Para aqueles que andavam nas trevas da morte, uma Luz brilhou… Um Filho nos foi dado… Mesmo que os nossos pecados sejam vermelhos como a púrpura, Ele os fará brancos como a neve… Vem, Senhor Jesus!

[1] Monja beneditina na Abadia de Santa Walburga, Alemanha; doutora em História da Igreja contemporânea pela Universidade de Navarra, Espanha; professora de História e Doutrina Social da Igreja; autora de ‘Lições de Gustavo Corção’, Quadrante, SP.

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