Ir. Martina Braga OSB

Estamos em tempos de Páscoa e de pandemia. Duas realidades que parecem à primeira vista irreconciliáveis. Uma nos traz a esperança da vida eterna e da vitória final sobre a dor; a outra nos depara concretamente com a doença e a morte. De um lado a beleza da fé, a alegria da alma, a confiança num poder que transcende todas as dificuldades. De outro, o realismo do sofrimento e da vulnerabilidade da vida humana. A Páscoa nos propõe o ponto mais alto da nossa fé. A pandemia nos depara com a necessidade premente de usar a nossa razão. Mundos distintos e separados?

Imaginemos dois casos extremos, raros naturalmente, mas que nos ajudam a ir ao âmago da questão. Duas pessoas são infectadas pelo vírus. Uma mulher, crendo-se muito religiosa, está convencida de que Deus vai salvá-la e se recusa peremptoriamente a seguir quaisquer medidas indicadas pela saúde pública. ‘Isso é falta de fé!’ brada ela. ‘Quem crê em Deus não precisa desses cuidados inúteis.’ Consequente com a sua loucura, ela desdenha lavar as mãos e evitar contatos. Seus únicos remédios são orações contínuas e toda sorte de práticas supostamente piedosas. Mesmo já infectada e padecendo no hospital, ela ainda se rebela contra os médicos e enfermeiros e vem, enfim, a falecer, repetindo, teimosa até o último minuto, que não tem necessidade de ajuda humana.

Uma vez na vida eterna, ela se queixa, naturalmente com veemência, de não ter sido salva. ‘Quantas e quantas chances Eu te dei para isso, minha filha’, responde-lhe Deus. ‘As medidas prudentes que todos tomaram, os conselhos dos amigos e depois os médicos e enfermeiros que fizeram tudo para te salvar. Mas a tua falta de bom-senso não viu a minha Mão em todas essas circunstâncias. Eu tinha grandes planos para a tua vida ainda… mas tu não ouviste a minha Voz através de tantas pessoas boas ao teu redor. Família e amigos sofrem agora por causa da tua morte desnecessária.’

Neste mesmo dia falece o nosso segundo caso: um homem de ciência, de longa experiência acadêmica, brilhante orador e ateu convicto, descrente de tudo o que não se possa ver, experimentar e provar. Apesar de todas as medidas de higiene levadas a cabo com exatidão, é infectado. ‘Um lapso nas leis de probabilidade’, afirma ele e segue rigidamente todas as recomendações dos médicos. A doença piora, ele é internado, passa muito mal, respira com dificuldade. Depois de alguns dias, perplexo, amargurado e não podendo nem entender nem resistir ao sofrimento, o grande cientista, num momento em que está consciente e sozinho, agarra um vidro de calmantes e os engole todos. Os médicos tentam ainda reverter a situação, mas sem sucesso.

Uma vez chegado, e com que surpresa, à vida eterna, ele pergunta a  Deus o que lhe faltou fazer para que tivesse podido viver. ‘Nada, meu filho’, responde o Senhor. ‘Tudo foi bem feito e os médicos agiram corretamente. Em dois dias, teus pulmões já estariam melhores e em uma semana tua saúde estaria em plena recuperação. Eu tinha grandes planos para a tua vida ainda… mas tu não ouviste a minha Voz no fundo do teu coração. O mundo da ciência sofre agora por causa da tua morte desnecessária.’

No primeiro caso, encontramos certamente uma pessoa de fé. Ela crê tão firmemente na existência de Deus e no fato de que Ele olha por ela, que chega a preferir a morte a renegar, segundo lhe parece, essa confiança. Não lhe falta fé, o que lhe falta é bom-senso e humildade. Uma observação psicológica mais profunda faz descobrir nessa fé aparentemente exemplar uma atitude de teimosia, ignorância e imprudência, por trás da qual se esconde talvez muito egoísmo e orgulho.

No segundo caso, o nosso cientista se suicida num ato de lógica irretorquível. A doença é uma ameaça clara e inteligível contra a qual há que agir-se de forma inteligente e disciplinada, e assim ele o fez. Por formas que a ciência pode igualmente explicar, a infecção não pode ser evitada. Os cuidados são intensificados, o paciente é internado e tratado racional e prudentemente. E então começam a aparecer fatores que a razão sozinha já não logra abarcar… O nosso cientista se vê agora ante uma situação que para ele não faz sentido. Por quê ele foi infectado, quando tantos outros, menos cuidadosos, não foram? Como enfrentar o sofrimento físico? Que sentido tem a profunda prostração da doença? Vale a pena continuar a viver? Todas essas são perguntas são perfeitamente racionais, legítimas e importantes. Mas ele, o homem sem fé, não encontra respostas que o satisfaçam agora, por mais excelentes e verdadeiros que sejam seus livros científicos. A ciência explica, em grande parte, os ‘comos’ do mundo material e isso é um avanço gigantesco no serviço à humanidade. Mas ela não pode responder aos ‘porquês’ filosóficos. No seu desespero vazio, o cientista se suicida. O que lhe faltou não foi o discernimento racional mas sim a humildade da esperança e da confiança.

Sua atitude parece, à primeira vista, perfeitamente inteligente. E, no entanto, vislumbramos nesse fim abrupto da própria vida algo de profundamente emocional e não racional. A mesma razão que faz dele um grande acadêmico deveria nesse momento levá-lo a considerar que pode haver elementos que ele ainda desconhece. O bom-senso deveria fazê-lo olhar ao seu redor e reparar em como outras pessoas sofrem como ele, sem ter o vazio que lhe enche o coração. A sua sinceridade científica deveria fazê-lo perguntar-se se de fato não existe algo mais do que o que ele pode ver e experimentar. A sua racionalidade, se verdadeira, não pode afirmar empiricamente a existência de Deus, mas tampouco pode negá-la… Pode ser que Deus exista… e, se Ele existe, pode ser que haja sentido para a vida, mesmo com o sofrimento. Pode ser que a esperança, o amor, a bondade, a coragem sejam elementos tão reais e verdadeiros do ser humano como o seu peso, a sua circulação sanguínea, os seus batimentos cardíacos… E talvez ainda mais reais e verdadeiros, porque permanecem quando esses outros vão-se apagando…

Se Deus de fato existe e se Ele é o criador do universo, Ele é também, obviamente, o criador da razão e da liberdade humanas. Essas prerrogativas são, na realidade, o que nos faz semelhantes a Ele. Qualquer negação da inteligência e da liberdade vem a ser uma negação de Deus mesmo. Ele poderia ter-nos feito marionetes, que nem podem alcançar nem corresponder ao seu Amor. Mas não. Ele quis dotar-nos de discernimento e de livre arbítrio. Quanto mais reconhecemos e usamos as nossas capacidades humanas, mais religiosos somos, por assim dizer, no sentido de que nos fazemos mais e mais semelhantes ao Criador. O que nos pode afastar de Deus não é o uso da razão e da liberdade, mas a falta de amor que anda geralmente unida à ausência da fé. Perdemos o rumo, já não sabemos qual é o objetivo maior, e acabamos transformando a nossa inteligência e liberdade – boas e essenciais em si mesmas – em instrumentos de destruição.

Quem tem fé sólida não só não despreza a razão como sabe que ela é das formas mais altas de louvor a Deus. Todo tipo de fanatismo religioso é, no fundo, uma falta de fé e uma adesão, disfarçada de piedade, a tiranias políticas, culturais, emocionais ou psicológicas. A fé é assim instrumentalizada, vira a desculpa, a pseudo justificativa de ações que, na verdade, nascem de interesses que nada têm a ver com o amor, a bondade, a paz, o perdão. As assim chamadas guerras de religião entre protestantes e católicos na Europa do século XVII foram simples guerras de expansão política. Os episódios de ‘caça às bruxas’, realizados tanto em territórios católicos – sobretudo a Alemanha, como em protestantes – sobretudo os Estados Unidos, são produto do medo de perder a hegemonia cultural de um grupo social. A crueldade abominável com relação aos judeus nasce da propaganda nacionalista, racista, da ignorância histórica e, em grande parte, dos interesses econômicos. O atual terrorismo islâmico choca os muçulmanos realmente sinceros e fieis.   

A fé, quando verdadeira, tem na razão uma aliada incondicional e reconhece a voz de Deus também nas circunstâncias naturais e materiais, assim como nas espirituais. O Evangelho, desde a Anunciação do Anjo a Maria até as palavras de Jesus após a Ressurreição, está cheio desse bom-senso simples e forte. Tudo o que de sentimental e absurdo se conta sobre as histórias dos santos é fruto de sentimentalismo, mesmo se bem intencionado. Basta olharmos o bom-senso de uma Madre Teresa, o brilhantismo acadêmico de um João Paulo II, a quase inacreditável capacidade administrativa de um São Vicente de Paula, o humor sábio de um São Francisco de Sales, o realismo de uma Santa Teresa d’Ávila, a prudência que São Bento exige na sua Regra monástica, o nível intelectual que vemos nas cartas que um dos grandes nomes da Renascença como São Thomas More escreveu da prisão, pouco antes de ser martirizado. E tantos e tantos outros exemplos, a começar pelos nossos papas atuais. No nosso Brasil, a determinação e a força de caráter de uma Santa Dulce dos Pobres.

A fé está ancorada na razão mas vai mais além, obviamente. A razão é algo natural; a fé é sobrenatural, um dom de Deus que nós podemos, na nossa liberdade, aceitar ou rejeitar. É inútil uma pessoa de fé querer impor a fé aos outros a golpes de argumentações racionais porque a razão não pode provar a fé. Por outro lado, e pelo mesmo motivo, a razão não pode negar a fé e é da mesma forma inútil ao ateu querer impor a sua descrença aos outros a golpes de argumentações empíricas. Aqui os dois mundos são distintos mas um não pode negar o outro.

No seu clássico livro ‘Introdução ao Cristianismo’, argumentava Josef Ratzinger, então Professor da Universidade de Tübingen e mais tarde Papa Bento XVI, com a sua finura e perspicácia habituais, que a dúvida existe – e tem que existir – para ambos os lados. O homem de fé tem que se perguntar se faz realmente sentido acreditar. E o ateu deve se perguntar igualmente se, quem sabe, Deus não existe realmente… Ambas as questões são autenticamente humanas: não fazê-las a si próprio é sinal de um intelecto e de uma sensibilidade reduzidos e pouco sinceros.

Ante a Ressurreição do Senhor, os discípulos reagem com espanto e incredulidade. É óbvio que fosse assim. A Páscoa é, aos olhos da mera razão humana, inexplicável. Mas não é absurda nem irracional… Faz sentido, enorme sentido – na verdade o único sentido – para toda a vida e a pregação do Senhor. Sem a Ressurreição, como diz São Paulo, tudo isso seria vão. A razão humana é como o fundamento, o pedestal; a fé é como a estátua que se levanta, alta, no ar. Sem a razão, a fé não se mantém e desaba. Sem a fé, a razão permanece no chão, incapaz de ir além de si mesma, de entender o porquê do mundo e da vida. Fé e razão são, como escreveu São João Paulo II na sua famosa encíclica, como as duas asas de um pássaro. Elas não se compensam, uma apenas limitando os exageros da outra… elas na verdade se complementam plenamente, e só juntas logram levar o homem adiante no seu caminho de vida. A falta de uma delas desequilibra a vida assim como o pássaro não logra voar com uma asa só.

Um ateu pode ser tão irracional – e portanto perigoso – quanto um fanático religioso. Ambos são imunes ao bom-senso quando se trata dos seus próprios argumentos. Eles se encontram em extremos opostos mas que se tocam. Um minimiza a dimensão material, outro a dimensão espiritual. Um se recusa a crer na importância de fatores médicos, biológicos, culturais. Outro se recusa a crer na existência de elementos que sobrepassam a mera matéria. Um terrorista religioso age geralmente no auge da emoção, indiferente à serenidade da razão. Um frio racionalista, ao contrário, age como uma máquina, indiferente a quaisquer valores da alma e do coração. O primeiro mata e tortura gente inocente aos gritos, violentamente, inflamado pela sua pseudo fé. O segundo abandona e tira a vida de gente inocente com uma mecânica intervenção médica, sem pestanejar nem sentir nenhum remorso. Qual dos dois é o pior? Só Deus sabe.   

Voltemos à Páscoa e à pandemia e consideremos agora como, no fundo, as duas realidades se encontram. A Páscoa só tem sentido por causa do sofrimento humano, ao qual Deus se submeteu numa forma ainda mais terrível que a do vírus: a flagelação, a crucifixão, a solidão do abandono, da zombaria e da ingratidão. Ele não buscou essa pena por Si mesmo e os Evangelhos nos contam como Jesus evitou tantas vezes ser preso e pediu ao Pai, na última noite, que afastasse d’Ele, se possível, este cálice de dor. Mas, respeitando a liberdade humana que chegou nesse caso à mais abjeta perversidade, Ele aceitou-o com obediência e confiança, transformando-o, assim, na nossa redenção. Por outro lado, a realidade da Páscoa é a única resposta plena e definitiva ao problema da dor humana; só o amor e a esperança fazem o sofrimento suportável. É porque o Senhor provou e venceu a morte que esta já não significa para nós o fim e o vazio, mas a esperança firme de que, no fim de tudo, o Bem, a Beleza, a Verdade, a Justiça e o Amor terão a última palavra.    

Na Páscoa de 2020, a fé não só não impediu mas recomendou que os fieis obedecessem às medidas de saúde pública e permanecessem em casa, sem participar das cerimônias públicas da Semana Santa, assistindo-as às distância pelos meios de comunicação. Falta de crença em Deus? Ao contrário, crença sólida de que Deus nos deu inteligência para agir assim e criatividade para tirar o melhor dessa situação. Jornais internacionais estimam que onze milhões de pessoas em todo o mundo assistiram à bênção do Papa pela televisão nesses tempos difíceis. Atividades religiosas têm tido recordes de audiência na internet. Isso não paralisa os cristãos, no entanto, no seu isolamento. Entidades e pessoas religiosas têm se desdobrado no trabalho de frente contra a pandemia, junto com seus colegas de outras confissões ou mesmo ateus: ateus que, no entanto, talvez sem saber explicar, guardam um resquício de fé e creem, de alguma forma, que a vida humana é algo mais do que um simples acaso da matéria…

Este resquício de fé tem que estar presente porque a razão humana só pode responder às perguntas práticas: o que é o vírus? Como evitá-lo e combatê-lo? Quais as medidas públicas e médicas mais prudentes e eficientes? O que se pode fazer, política e economicamente, para debelar as consequências graves da epidemia nesses campos? É a fé que pode responder às perguntas filosóficas e teológicas da pandemia. Por quê, a rigor, tanto esforço em salvar vidas? Todos vamos morrer um dia, que diferença faz se hoje ou em alguns anos? Que sentido faz, nesse momento, em lutar pela sobrevivência dos velhos? Há tantas teorias pseudo científicas que afirmam que a superpopulação do mundo é uma ameaça ao futuro da humanidade, não seria, portanto, extremamente lógico deixar a pandemia correr o seu caminho e eliminar rapidamente uma grande parte da população, especialmente aqueles que já são mesmo os mais fracos e velhos? Por que todo esse sacrifício, inclusive de vidas jovens e valiosas à sociedade, como a dos médicos? E como reagir ao medo, à angústia e ao isolamento? Como não permitir que a epidemia determine completamente a nossa vida? Como medir até que ponto o cuidado pelo corpo passa a ser um exagero prejudicial à saúde da alma? Onde buscar apoio e ajuda espirituais? Que atitude ter com relação à assistência aos mais pobres e indefesos? O que Deus quer nos dizer com esses acontecimentos?

Com todo o seu imenso peso negativo sobre a nossa sociedade, a epidemia mostrou-nos nesses dias muito concretamente a beleza sem par da profunda solidariedade humana. Onde fé e razão cooperam uma com a outra, as pessoas experimentam possibilidades humanas maravilhosas, mesmo em meio a tremendas dificuldades. Quantos testemunhos temos visto e ouvido de vidas e corações que foram tocados, de uma maneira ou de outra, pela necessidade do sacrifício e da caridade.

Nesse caminho, ninguém melhor do que o Santo Padre para ajudar-nos. Recordemos as suas palavras na Vigília da Páscoa: “Terminado o sábado, as mulheres foram ao sepulcro. Como nós, elas tinham nos olhos o drama do sofrimento. Viram a morte e tinham a morte no coração. À amargura, juntou-se o medo: acabariam, também elas, como o Mestre? E depois os receios pelo futuro, carecido todo ele de ser reconstruído. Para elas, era a hora mais escura, como o é hoje para nós. À medida que o tempo passa e os medos crescem, até a esperança mais audaz pode desvanecer. Contudo, nesta situação, as mulheres não se deixam paralisar. Não renunciam ao amor: na escuridão do coração, acendem a misericórdia. Vão ao túmulo e lá ouvem palavras de vida… Depois encontram Jesus, o autor da esperança. Não temais: eis o anúncio de esperança para nós, hoje. Tais são as palavras que Deus nos repete na noite que estamos atravessando. É uma esperança nova, viva, a que vem de Deus. Não é mero otimismo, não é uma palmada nas costas nem um encorajamento de circunstância. A esperança de Jesus põe no coração a certeza de que Deus sabe transformar tudo em bem. Podemos e devemos esperar, porque Deus é fiel. Não nos deixou sozinhos, visitou-nos: veio a cada uma das nossas situações, no sofrimento, na angústia, na morte. E, seja qual for a tristeza que habite em nós, sentiremos o dever de esperar, porque com Deus a cruz deságua na ressurreição, porque Ele está conosco na escuridão das nossas noites e nada poderá jamais roubar-nos o Amor que nutre por nós.”

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