Entrevista com Irmã Martina, monja beneditina

Abadia de St. Walburga, Alemanha. É de lá que entram em nossas casas, através da internet, as belíssimas reflexões sobre a vida monástica, da qual podemos extrair ensinamentos para o nosso cotidiano. E esse presente vem da irmã Martina, monja beneditina, brasileira, que cumpre seu chamado à vida religiosa na Alemanha.

Irmã Martina criou um canal no YouTube, no qual, através de uma série de pequenos vídeos, fala de forma muito descontraída e cheia de fé sobre os valores da vida monástica. Seu objetivo é que esses vídeos possam ser um canal de evangelização para todos.

A primeira série de dez vídeos pode ser encontrada no seu canal no YouTube (Ir Martina-Abadia Sta Walburga) ou ser acessada pelo nosso aplicativo (Paróquia N Sra de Fatima RTS) ou pelo site da Paróquia.

O canal de Irmã Martina traz vídeos de formação em português, inglês e alemão e já tem um expressivo número de seguidores que, com certeza, buscam viver uma fé mais profunda em um mundo tão complexo.

Irmã Martina é a voz do claustro, a palavra que ressoa no mundo através da internet.

Nesta entrevista concedida à Pascom de nossa Paróquia, vamos conhecer um pouco mais irmã Martina, como fez a escolha do mosteiro, quais as dificuldades que enfrentou e como foi esse chamado, entre outras coisas.

PASCOM – Irmã, fale um pouco da sua vida antes do mosteiro, sua família, suas raízes religiosas, sua profissão.

IRMÃ MARTINA – Eu nasci no Rio, décima filha de pais muito católicos. Meus pais faziam parte de um grupo católico ligado ao Mosteiro de São Bento, no Rio, desde a juventude deles. Meus irmãos também estudavam no Mosteiro, minhas irmãs, com as irmãs beneditinas, e eu sou uma filha temporã da família. Sempre tivemos em casa uma formação muito católica, por um lado, mas por outro lado nada sentimental, uma formação católica muito profunda. Meus pais não eram pessoas de dinheiro, mas eram pessoas de muita cultura, e sempre foi importante pra gente essa amizade entre fé e razão, entre piedade e estudo, uma vida muito saudável no mundo, cheia de esporte, por exemplo, cheia de cultura, mas, ao mesmo tempo, cheia de fé em Deus. Eu sempre quis ser professora desde pequenininha, sempre ensinava minhas bonecas e me formei em professora primária. Depois, durante algum tempo, fui professora de História e Geografia no segundo grau e, finalmente, depois que eu fiz meu doutorado na Espanha em uma Universidade muito católica, fui professora no Brasil por 12 anos em Seminários Diocesanos e cursos de Teologia. Isso é parte da minha vocação, esse trabalho pela Igreja, esse trabalho de evangelização, fazendo, de certa forma, um pouco daquilo que meus pais me ensinaram, que é ajuntar as coisas boas humanas com as coisas divinas. Saber que no fundo tudo vem de Deus, a nossa razão, o nosso estudo, enfim, todas as coisas que a gente tem aqui na terra vêm de Deus, e em tudo a gente deve encontrar Deus, trabalhar para Deus e para nossos irmãos.

PASCOM – Em que momento a senhora sentiu o chamado para ser monja?

IRMÃ MARTINA – É muito difícil responder a essa pergunta, porque é uma coisa que foi crescendo muito devagar desde adolescente. Já com 12, 13 anos, acho que todos nós que temos uma vida católica, nessa idade sentimos um pouco esse chamado de Deus a fazer uma coisa mais radical, a fazer uma coisa especial por Ele, a responder realmente ao chamado de Deus de uma forma mais sincera. Mas, naquela época, eu não pensava ainda em entrar para um mosteiro; pensava em me casar, que era mais ou menos o caminho que era normal na minha família. Eu tenho muitos sobrinhos.  Desde pequena já tinha muitos sobrinhos, pois meus irmãos são muito mais velhos. Foi com o tempo, na casa dos 20 anos, entre os 20 e 25 anos, que pela primeira vez esse pensamento me veio. Muita influência foi por causa da proximidade da minha família com o Mosteiro de São Bento, no Rio, e eu sempre gostei daquela quietude, daquela tranquilidade dos monges, da vida muito regrada, do horário, da rotina. Isso sempre me atraiu muito, e em minha vida no mundo sempre procurei fazer um pouco assim também. Nunca foi uma vida social muito movimentada; sempre foi uma vida que, de certa forma, procurou manter também esses valores de tranquilidade, de tempo, de comunidade. Mais tarde então, com vinte e seis, vinte e sete anos, eu comecei a procurar mosteiros. Naquela época, eu estava estudando na Espanha. Visitei alguns mosteiros na Europa, depois alguns no Brasil. Soube de outros também nos Estados Unidos, onde duas de minhas irmãs moram há muitos anos, e acabei realmente pensando que essa seria uma opção muito séria, que Deus estava me chamando. Mas, ainda assim, trabalhei no Brasil. Só entrei para o mosteiro com 40 anos, porque meus pais já estavam velhinhos. Eu sou a filha caçula e quis muito cuidar deles até sua morte. Isso me parecia também parte da minha vocação, esse cuidado pelos meus pais, minha família, e só com trinta e oito, trinta e nove anos é que senti esse chamado a dar esse passo concretamente, e acho que foi na hora certa. Acho que Deus quis esse caminho muito variado para a minha vida, mas tudo isso é ligado por uma linha comum, que é a linha da vocação, que para cada um de nós é diferente. O importante é que a gente saiba ouvir e tenha coragem de responder.

PASCOM – A senhora teve algum incentivo familiar no momento em que decidiu seguir com a vocação monástica?

IRMÃ MARTINA – Como eu entrei já muito tarde para o mosteiro, na verdade a minha família não desempenhou um papel muito importante nisso. Eu comentava isso com meus pais, que não tinham nada contra. A única coisa que eles diziam era: “escolhe um mosteiro sério, um lugar onde a vida seja realmente uma vida de fé, porque hoje às vezes há tantas confusões, mosteiros extremamente liberais, outros conservadores demais e há muita confusão, até mesmo política”, mas eles não eram contra. Muitos dos meus irmãos já perderam a fé e, claro, não gostam da ideia de que eu more em uma clausura que eles não possam visitar muito. Mas, na verdade, quando entrei para o mosteiro, meus pais já tinham falecido e não comentei muito com meus irmãos. Então não posso dizer que a família tenha apoiado muito ou que eu tenha dado oportunidade a eles de se mostrarem contra. Quando eu fui caminhando para fazer os votos, alguns irmãos foram muito contra, sim, mas nada que fosse agressivo. E hoje todos veem que eu estou bem e feliz e, de uma forma ou de outra, acabam se aproximando mais do que quando eu morava no mundo. Engraçado… Hoje, minha relação com minha família é mais próxima, embora a gente não se veja tanto; entretanto, é mais feliz do que anteriormente.

PASCOM – Já teve dúvidas quanto à vocação ou pensou em desistir?

IRMÃ MARTINA – Certamente. Os primeiros anos são os anos de noviciado. A gente deve pensar muito se esse realmente é o caminho, se não é, qual é a vontade de Deus, se sou eu que estou querendo ou se é Deus que realmente está querendo. Também vale a pena conversar com as pessoas em quem a gente tem confiança. Eu tenho aqui minha madre, sacerdotes, que me ajudam muito nesse sentido. A decisão é nossa, só nós podemos tomar essa decisão, mas é sempre bom escutar pessoas com vida santa e pessoas em quem a gente tem confiança. Então eu deixei isso sempre muito aberto; eu falei: “Deus, o Senhor sabe se o Senhor quer que eu fique, o Senhor precisa me mostrar muito concretamente”. Claro que tinha momentos em que desejava sair, principalmente porque aqui na Alemanha eu sou estrangeira, a língua é muito difícil de aprender, não tenho parentes aqui, sinto muita falta da minha terra, dos amigos, dos alunos, da família. Em outros momentos, a gente acha difícil a vida em comunidade; a cultura também é muito diferente. Outras vezes eu pensei, “será que minha vocação não é realmente continuar dando aulas como antes?” Sinto muita falta de dar aulas. Isso tudo é um processo para a maioria das pessoas e, com o tempo, a gente vai descobrindo que a voz de Deus é justamente como diz a passagem do profeta Elias na Bíblia: “uma brisa suave, mansa”. Geralmente, Deus fala devagarzinho; a gente tem que saber escutar, mas com muita segurança, e aí, à medida que a gente vai dando os passos da vida monástica até o último passo, que são os votos perpétuos, a gente tem tempo pra ir vendo o que Deus quer. Não é fácil sempre, mas para ninguém é fácil. A vocação de uma pessoa casada, de um sacerdote, de uma pessoa solteira no mundo não é fácil. Há momentos em que, claro, a gente duvida um pouco de Deus: “Onde é que o Senhor está?” Isso tudo faz parte, mas, de alguma forma, a gente tem que procurar onde é que está a paz, onde a gente sabe que o coração está em paz e ali geralmente é onde Deus quer que a gente esteja.

PASCOM – Como se deu a escolha do mosteiro onde iria cumprir sua vocação?

IRMÃ MARTINA – Essa é uma história muito interessante, porque me parece também haver a mão de Deus nisso. Como eu disse antes, procurei, visitei alguns mosteiros. É fácil visitar mosteiros. A gente passa o dia lá, rezando com as irmãs, trabalha um pouquinho com elas. Eu era estudante e as irmãs me deixavam ficar. Eu não precisava pagar a estadia, em troca de ajudar um pouquinho no trabalho, e visitei mosteiros muito bons, muito bonitos, inclusive em países diferentes. Mas a gente escolhe o mosteiro um pouco por alguma coisa que a gente não consegue explicar muito. É um pouco uma questão de personalidade. Acho que é um pouco como quando se escolhe o marido com quem se vai casar, ou como escolhemos uma pessoa como amiga. A gente tem uma afinidade com o lugar. Esse mosteiro aqui tem vários aspectos que me atraem; por exemplo, ele é em uma cidade, mas uma cidade pequena. Eu não queria morar muito no meio do campo. Não sou uma pessoa de trabalhar em fazenda, então eu gosto de morar um pouquinho na cidade. Mas na cidade grande às vezes os mosteiros são muito apertados, e aqui não, é uma cidade pequeninha. Aqui todo mundo se conhece; por outro lado, o mosteiro é muito antigo, muito histórico e isso me atrai, porque eu estudei História e gosto muito de ver a casa antiga, a arte antiga, muito bonita, o barroco. Tem uma história de quase mil anos, e isso me atrai também. Aqui temos o túmulo de uma Santa, Santa Walburga, que é o nome do mosteiro, e isso atrai muitos peregrinos, o que eu acho também muito bonito. Além disso, a vida religiosa do mosteiro é como eu queria que fosse, muito católica, nem liberal nem conservadora demais. Também temos o hábito, que é muito bonito, antigo; a disciplina é estrita, mas não vivemos no passado. Há coisas modernas. Nossa cozinha é moderna. A gente pode tirar uma, duas ou três semanas por ano pra visitar algum outro mosteiro, posso ir ao Brasil. Então é um equilíbrio que sempre me atraiu muito, a beleza, a simpatia das irmãs que eu encontrei. A região aqui é muito bonita, com uma tradição histórica católica muito grande, enfim… Mas é muito difícil a gente explicar (risos); é uma questão de afinidade realmente. Acho que a vocação é assim também, porque eu sou beneditina e não franciscana. Acho que é uma questão de afinidade   

PASCOM – A senhora tem algum Santo/Santa de devoção?

IRMÃ MARTINA – Vários, claro. São José talvez seja o maior deles. Peço sempre muita coisa a São José. Ele me ajudou enormemente na vida da família. Também confio a ele as coisas mais graves, mais importantes, mais urgentes. Depois São Martinho, porque meu nome é Martina. São Martinho de Porres, um Santo peruano do século XVI, filho de uma escrava. Uma história muito bonita, um Santo que fez muitos milagres. Ele era muito bondoso com as pessoas. Vários outros Santos da Igreja: São Tomás Morus, por exemplo. São Bernardo de Claraval, São Bento, claro, que é meu patrono. Há Santos modernos que me parecem muito interessantes também. Santa Bakhita, São João Paulo II, que sempre foi uma grande influência na minha vida. Passei minha infância e juventude no pontificado dele. Ele sempre me influenciou muito. Visitei a cidade dele, Cracóvia, uma vez. Parece-me que esses são os mais importantes. Amizade com os Santos: acho que essa é a expressão essencial para nossa vida espiritual. Os Santos estão aí no Céu para nos ajudar, para interceder por nós. Quantas e quantas coisas peço todo santo dia a São José e São Martinho, por pessoas que precisam, coisas que precisam… Espiritualmente, posso dizer que a ajuda sempre vem, não exatamente quando eu queria, na forma que eu queria, mas geralmente melhor do que eu esperava.

PASCOM – Que características da sua ordem monástica a senhora acredita que todos poderiam cultivar?

IRMÃ MARTINA – São várias, e isso é o tema da primeira série de vídeos que eu fiz. Mas uma resposta resumida, rápida seria: a vida beneditina procura muito um equilíbrio, uma boa medida, uma expressão que São Bento usava. Há outras vocações que são mais específicas na Igreja, vamos dizer assim. Há irmãs que se dedicam a cuidar dos doentes, dos pobres, como Madre Teresa. Há outras ordens que se dedicam mais aos estudos, como os dominicanos, outros, a uma vida mais de pobreza, como os franciscanos, uma vida mais de oração e de penitência, como os carmelitas. Enfim, cada Ordem tem o seu carisma, e os beneditinos têm justamente essa característica de equilíbrio. A gente não tem uma vida de penitência muito forte, a gente não tem necessariamente uma vida de oração constante. Há religiosos que têm, por exemplo, Adoração constante. São Bento quis muito fazer os seus monges terem, como ele dizia, uma vida cristã muito sincera, muito forte, muito autêntica e muito natural também. O beneditino vive na sua clausura, no seu mosteiro, mas a gente tem uma enorme quantidade de atividades, inclusive muito a ver com a cultura, com o ensino, com o estudo. Nós temos uma biblioteca muito grande, atividades no jardim. Na história da Europa, os beneditinos foram grandes inovadores, grandes cientistas, grandes cultivadores, desde a agricultura até estudos de astronomia, matemática, línguas. Então isso também tem um pouco daquela característica que meus pais me deram e que naturalmente eles também receberam dos beneditinos, que é trazer Deus para todos os aspectos da vida. Não há aspecto da nossa vida no qual a fé não entre e não influencie. Eu acho que isso é muito importante para o mundo de hoje. A vida católica, cristã, religiosa não deve ser uma coisa isolada. Eu posso ser uma pessoa católica quando estou na Igreja, na Paróquia, e fora disso minha vida não tem mais nada a ver com aquilo. Não! A gente não pode impor a fé aos outros, mas a gente mesmo deve trazer a nossa fé para cada minuto e segundo da nossa vida. Isso não quer dizer ficar falando de Deus o tempo inteiro, não quer dizer ser uma pessoa esquisita, mas em tudo que a gente faz, desde o trabalho, a vida em família, até a nossa vida, aquilo que a gente lê, que a gente vê na televisão, no jornal, a nossa vida política, social, econômica, em tudo nossa fé deve estar presente. Isso é um pouco do que São Bento quis fazer, por isso a influência tão grande que os beneditinos tiveram na história da civilização. Eu acho que isso é uma coisa que no mundo de hoje a gente também poderia prestar atenção, não viver duas vidas separadas. Eu sou uma pessoa de fé e isso influencia toda a minha vida, mesmo porque para isso eu não preciso necessariamente estar falando coisas religiosas constantemente.

PASCOM – Qual o seu olhar para o fato de o mundo ter experimentado uma espécie de clausura com a pandemia? Esse isolamento seria uma oportunidade de um encontro mais íntimo com Deus, consigo mesmo ou com os irmãos?

IRMÃ MARTINA – Parece-me que sim. O mundo viveu neste ano e no ano passado uma espécie de clausura, como a gente vive aqui no mosteiro, e se a gente souber aproveitar isso, a gente certamente revaloriza mais muitas coisas, que no corre-corre da vida a gente esquece, porque a gente não tem tempo. Eu acho que embora a pandemia tenha trazido muito sofrimento pra muita gente que ficou isolada, fora o sofrimento das pessoas que ficaram doentes e vieram a falecer, as pessoas que ficaram isoladas passaram por tempos difíceis, sobretudo no plano econômico e no isolamento social, mas, por outro lado, às vezes a doença, o sofrimento parecem trazer pra gente uma antena nova, um sentido novo. Começamos a ver coisas que ou não tínhamos visto ou já tínhamos esquecido. Estar mais com a família, se dar melhor com pessoas com quem a gente talvez estivesse brigado, dar mais atenção aos filhos, dar mais atenção ao esposo, à esposa, ter um pouquinho mais de tempo para ler coisas boas, se instruir, rezar, enfim, fazer essas atividades muito humanas, profundamente humanas, que o mundo de hoje tende a sufocar um pouco. A nossa vida é muito materialista, é uma vida que tende quase sempre a desprezar essas coisas muito humanas, como simplesmente conversar, fazer uma atividade juntos, uma coisinha, uma costura, uma brincadeira com os filhos, coisas que não estão produzindo nada materialmente, mas que ajudam muito a nossa alma, o nosso coração, a sermos mais humanos. Na medida em que nos aproximamos de Deus, curiosamente somos mais humanos também. Na medida em que somos materialistas, vamos nos desumanizando. Então, talvez Deus tenha dado pra gente essa oportunidade da pandemia, não só diretamente pra gente rezar mais ou ir mais à Igreja, a que nem sempre podemos ir, ver na televisão coisas especificamente mais religiosas, para que em nosso coração possamos abrir um pouco de espaço a um tanto de coisas humanas que, no fundo, vêm de Deus, que são boas para nós e que às vezes a vida não nos permite fazer.

PASCOM – Como surgiu a ideia de criar um canal no YouTube?

IRMÃ MARTINA – Por essa necessidade que eu tenho aqui na Alemanha de fazer alguma coisa pelo meu povo, pelo Brasil. Eu sempre fui professora; sinto muitas saudades dos meus alunos, principalmente dos meus alunos adultos do curso de Teologia. Eu sei que, claro, todos nós precisamos ouvir coisas boas ligadas à evangelização, e eu sempre fiquei pensando no que eu poderia fazer daqui. Poderia escrever, mas é mais difícil de publicar, e também meu tempo aqui é curto. E agora, com a pandemia, tive a ideia de que como todo mundo está fazendo coisas por vídeo, por computador, por que eu não poderia fazer também um pequeno vídeo? As pessoas me animaram, alunos, padres, então eu acabei criando uma seriezinha. Então deu certo. Traduzi depois para o inglês, porque eu tenho família nos Estados Unidos e conhecidos também. Alguns aqui falaram para eu tentar também fazer a série em alemão, embora meu alemão não seja muito bom (risos), mas, enfim, é uma coisa muito modesta, muito humilde, mas me sinto grata a Deus por me dar essa chance de, de alguma forma, poder dar uma contribuição na nossa vida de fé com Deus,

PASCOM – A primeira série de dez vídeos já está encerrada. Quando sairá a nova série e sobre o que vai tratar?

IRMÃ MARTINA – Eu já estou trabalhado nela; talvez já em agosto eu consiga começar. É uma série mais dedicada à História da Igreja, que é a área que eu ensinei durante muitos anos no Brasil, mas também sobre a nossa vida de fé muito prática, muito concreta. É uma série dedicada aos últimos Papas que nós tivemos desde o século IX até hoje. É um pouco do que eles falaram e como a gente pode entender a Igreja. A religião hoje em dia vive uma época de crise que não é nova. A História da Igreja é muito humana e sempre há crises. O que é perfeito na Igreja é o que vem de Deus, não é o que vem dos homens, e muitas vezes a gente se sente meio perdido. Há muitas coisas políticas dentro da Igreja, muitas reclamações. Parece-me que isso tudo é muito pequeno, muito pobre; a gente tem que ver as coisas de uma forma grande, maior, justamente uma visão que vem da fé. A gente não tem fé na Igreja por causa das pessoas na Igreja, a gente tem fé na Igreja porque Jesus garante a Igreja. É uma série que vai tratar um pouco desse tema da Igreja contemporânea.

PASCOM – Tem algum conselho para quem sente esse chamado à vida religiosa?

IRMÃ MARTINA – Sim, um conselho que é tirado da minha própria experiência. Há outros caminhos também, mas minha experiência é como a da grande maioria das pessoas que entram nessa vida religiosa. O grande conselho é não ter medo, lembrar dessa palavra de Jesus repetida várias vezes no Evangelho “não tenhas medo”. São João Paulo II também falou isso tantas vezes tão bonito e tão forte… Não ter medo, disse o Papa Bento XVI, do chamado de Deus. Deus não tira nada da gente, Ele só dá, só acrescenta. Às vezes parece que Ele está tirando, mas não é verdade, eu posso dar o testemunho disso. É verdade que eu sinto falta do meu país, da minha família, mas Ele me dá coisas que compensam isso enormemente, por exemplo, a melhor relação que hoje eu tenho com minha família. Tantas coisas que eu não podia fazer e hoje eu posso, inclusive tantos livros que hoje eu leio, tantas coisas novas que eu descubro. Deus só dá, só enriquece, só ama, só quer o nosso bem. Os pequenos sacrifícios que Ele nos pede são, como Ele mesmo disse, um jugo suave. Deus nunca nos pede holocausto, nada disso, isso não existe; isso é um discurso que não é verdadeiro quando se fala da vida religiosa. E, por outro lado, somos muito livres, a gente pode tentar e ver se aquilo não é o nosso caminho, então a gente não precisa ficar. Nada na vida religiosa nos obriga no sentido de opressão. Temos no mínimo cinco anos pra pensar naquilo, realmente olhar a nossa alma, o nosso coração, a vontade de Deus. Então podemos seguir sem medo. Muitas vezes as pessoas têm muito medo. Agora, é preciso usar muito a cabeça também, ser muito razoável, não se deixar levar por entusiasmos nem por sentimentos, nada disso é a vida religiosa. A vida religiosa, assim como a vida de casado, é uma coisa que requer muito bom senso. É preciso dar um passo de confiança em Deus, é preciso ter fé. Mas Deus é sempre Ele mesmo, cheio de bom senso e cheio de liberdade

PASCOM – Que leitura indicaria para quem tem dúvidas quanto à vocação?

IRMÃ MARTINA – Isso varia muito. A principal leitura é o Evangelho. Não adianta ficar lendo vários livros daqui e dali, procurando, procurando, se a gente não ler o principal, que é a Sagrada Escritura, principalmente o Novo Testamento. O principal é ler com cuidado, com atenção o Evangelho, o que Jesus diz, o que posteriormente disse São Paulo, os Atos dos Apóstolos. Ali a gente geralmente acha a nossa vocação. A vocação é um chamado de Deus, não é um chamado de pessoas, não é um chamado da Ordem e não é um chamado da Igreja, é um chamado de Deus. Deus precisa falar conosco, e onde é que a gente encontra Deus? No Evangelho. Para os católicos, também na Eucaristia, na confissão, se possível buscar um diretor espiritual, que pode ser um sacerdote, pode ser uma pessoa muito fiel à Igreja, com quem a gente possa conversar abertamente. mantendo a nossa liberdade. Não quer dizer que a gente vai fazer aquilo que essa pessoa vai dizer, mas ajuda muito a entender um pouco melhor. Quanto à leitura, realmente depende, pois cada um tem leituras de que gosta, que fazem bem. Eu procuro sempre ler o que dizem os Papas, as encíclicas, as homilias do Santo Padre. Existem Santos sobre os quais eu gosto muito de ler, como São Francisco de Sales, por exemplo, Santo Inácio de Loyola. Os exercícios espirituais ajudam muito nessa decisão, mas eu diria que principalmente devemos nos ater àquilo que realmente é essencial: a leitura da Sagrada Escritura, do Novo Testamento, a Eucaristia, uma boa confissão regular e uma conversa regular, aberta, livre, bonita com uma pessoa em quem a gente tenha confiança.


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