Decisões essenciais

Ir. Martina Braga OSB[1]

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            O tempo litúrgico do Natal, que celebramos durante duas ou três semanas, até a festa do Batismo do Senhor, nos faz reviver mais de perto o início da vida de Jesus aqui na terra. Ano após ano, relembramos a anunciação, a visita à prima Isabel, o anjo que fala com José em sonhos, o estábulo em Belém, os magos do Oriente, a fuga ao Egito… As leituras do Antigo e do Novo Testamento falam de profecias e histórias que conhecemos desde crianças. Sabemos com exatidão o que vai acontecer. Nossa Senhora vai dizer o seu sim, São José vai seguir as instruções do anjo, os pastores vão visitar o Menino recém-nascido, os magos vão trazer ouro, incenso e mirra, e assim por diante.    

            Esse rememorar de narrações já conhecidas tem o propósito fundamental de nos ajudar a meditar ainda mais profundamente o mistério de Deus feito carne, a fim de amá-Lo mais e melhor. E, no entanto, mesmo celebrando essas festas com devoção e fé, corremos o perigo de tomarmos esses fatos como óbvios e inevitáveis. É como se Maria e José, Isabel, os pastores, Herodes e os magos fizessem parte de um teatro, com papéis determinados, assim como nós pomos as figuras do presépio, cada uma no seu lugar… Tantas vezes nos esquecemos de que essas figuras representam pessoas dotadas de liberdade e de razão, que poderiam, se quisessem, ter escolhido caminhos diferentes.

            Deixemos correr a nossa fantasia por um momento, com a reverência que o assunto exige mas com o realismo e a confiança de filhos de Deus. Imaginemos que Nossa Senhora, ao escutar o anjo, preferisse responder algo como: ‘eu preciso de um tempo para pensar…’ Ou: ‘não, isso é grande demais para mim…’ Ou ainda: ‘quero saber dos detalhes, como vai ser, o que vai acontecer, o que eu vou ter que fazer…?’. Embora tenha sido concebida sem o pecado original, Maria conservava inteiramente a sua liberdade e poderia ter duvidado, rejeitado ou desconsiderado a vontade de Deus… O que teria sido então de nós, como se pergunta São Bernardo?

            Consideremos José. Imaginemos que, ao ouvir a explicação do anjo, ele hesitasse e, em lugar de tomar Maria como sua esposa, decidisse que era menos arriscado esperar até a criança nascer… Ou que ele se revoltasse contra a ordem de levar a família até Belém e acabasse preso pelos romanos… Ou que ele não acreditasse na ameaça de Herodes e achasse melhor não fugir para o Egito…

            Pensemos nos pastores, exaustos do trabalho, buscando um merecido repouso na noite fria. Não seria de espantar que, depois de ver o coro dos anjos, acabassem voltando a dormir. E quem poderia acusar os magos, se eles desistissem de procurar pela estrela e ficassem em Jerusalém, confusos e desapontados? Ou o velho Simeão, se ele tivesse perdido a esperança de ainda ver o Messias em vida…?

            Essas conjecturas nos parecem absurdas. Sabemos que não foi assim! E, no entanto, isso tudo poderia bem ter ocorrido… Todos estes personagens históricos são seres humanos em tudo iguais a nós, com suas dificuldades, limitações, fraquezas e – com exceção de Nossa Senhora – com seus pecados. Deus, na Sua infinita doçura e bondade, quase com humor, quis pedir e depender da virtude dessas pessoas para realizar o Seu plano…

            O que determina o gigantesco valor desses personagens da História Sagrada não é, portanto, como muitas vezes pensamos, uma espécie de inércia pueril frente à arbitrariedade divina, como se eles obedecessem por ingenuidade. Não, muito pelo contrário, cada um deles foi chamado e convidado individualmente por Deus para cumprir o seu papel na salvação da humanidade. A santidade deles consiste exatamente em ter aceitado, livre e conscientemente, apesar de todas as suas falhas e dúvidas, esta confiança de Deus…

            No começo de cada novo ano a mesma questão se apresenta de certa forma à consciência de cada um de nós. O que fazer da minha vida, dentro das circunstâncias que me cercam? Deus nunca está ausente. Ainda hoje Ele nos chama, pessoalmente, a ser aquilo que Ele desejou para nós. A segui-Lo, mesmo que obscura e humildemente como Maria, José e os pastores. A dizer o nosso fiat a Sua vontade, mesmo quando ela discorda da nossa. A confiar, em última instância, na sua Palavra e no Seu Amor.   Essa é a grande decisão das nossas vidas… Essa é a resolução que pode mudar a História, a nossa e a dos outros. Santo Agostinho diz que tudo o que é bom, belo e justo é construído justamente sobre a nossa escolha pessoal de amar a Deus até o ponto, se necessário, do esquecimento de nós mesmos. Ao contrário, ele afirma, o mal é trazido ao mundo pelo amor-próprio egoísta, pelo nosso orgulho, que chega ao absurdo do esquecimento de Deus.    

            Esses termos nos parecem talvez muito duros. Santo Agostinho era um pecador como nós, sabia bem o quão difícil é o mundo e certamente não condenava o amor saudável de si mesmo, reflexo do Amor de Deus por nós e condição do nosso amor ao próximo. O que ele quer dizer então? Simplesmente que o amor verdadeiro implica numa entrega plena, madura de si mesmo. E que só esse amor pode construir o bem e a felicidade. ‘Ama e faz o que queres’, escrevia ele ainda, porque no amor verdadeiro – na caridade que vem de Deus e que se reflete no próximo – já estão contidas todas as virtudes.

            São Paulo também nos adverte com firmeza: sem esse amor, sem essa caridade, a rigor nada do que fazemos tem valor. É esse amor que move os santos. Não um sentimento volúvel, apoiado nos gostos e temperamentos, irracional, hoje entusiasmado, amanhã deprimido. Mas sim uma disposição livre da vontade, meditada, firme, perseverante. Um amor que é capaz de dar-se mesmo aos inimigos e de sobreviver às mais duras decepções. Um amor que é o retrato do Amor que Jesus teve por nós.

            Voltemos ao presépio. A resposta de Maria ao anjo foi perfeitamente consciente, como nos diz o Papa Bento XVI no seu livro sobre a infância do Senhor. Maria se surpreende, cogita e então aceita, com a plena concordância da sua razão e da sua vontade. José tampouco age irracionalmente. A todo momento se faz necessário que ele use o seu discernimento, desde a sua reação ante a noiva que espera um filho até achar lugar em Belém quando as estalagens estão cheias, circundar e dar o nome ao Filho de Deus, estabelecer-se na Galileia e não na Judeia ao regressar do Egito, e assim por diante. O mesmo se pode dizer dos pastores, magos e outros personagens. Buscam, escutam, meditam, agem. São inteiramente humanos, também nas suas perplexidades, medos e fraquezas.

            O que os distingue de nós, talvez, é a prontidão humilde da sua resposta. Quando percebem a vontade de Deus, mesmo que não a acabem de compreender perfeitamente, eles não hesitam. Vencem as suas dúvidas e receios e têm a coragem de ir em frente. As virtudes da fé e da esperança exercem aqui um papel fundamental – sem elas, essas pessoas não poderiam caminhar rumo a um futuro desconhecido, certamente exigente e incômodo. Mas, sobretudo, é o amor de Deus que lhes leva a essa prontidão e a essa entrega. Uma vez tudo visto, meditado e considerado, só o amor tem a força de tomar a decisão e dar o passo adiante.

            Conta-se que o grande mártir inglês, São Thomas Morus, recebeu a visita da sua filha mais velha na prisão, enquanto esperava a sua execução. Morus tinha sido chanceler do reino, era pai de família numerosa, homem de primeira importância social e uma das mentes mais brilhantes da Europa do seu tempo. Estava preso por ter-se negado a aceitar a autoproclamação do rei – seu antigo amigo – como cabeça da igreja na Inglaterra. A filha, que o amava muito, tentava convencê-lo de ceder às pressões da política e usava para isso os melhores argumentos intelectuais. Numa cena memorável do grande filme ‘O Homem que não vendeu sua alma’, vemos Morus abraçar a filha dileta com carinho e explicar docemente: ‘Os seus argumentos são finos e inteligentes… mas você não vê? No fundo, isso é uma questão de amor… Eu amo o Senhor Jesus e não posso traí-Lo…’  

            Gustavo Corção, escritor católico, convertido já na meia-idade, descreve assim a sua resposta à fé: ‘Deus nos chama e nos ajuda, mas de repente ficamos numa situação inaudita, porque nos compete responder. Quase se pode dizer que nesse instante incrível há um silêncio de Deus. Todos os santos calam-se… Estamos subitamente sós e livres… E temos de fazer um pequeno ato, uma insignificância, um gesto de amor, uma coisa de nada que tem a capacidade de encher um silêncio de Deus.’

            A história do Natal, nos damos conta, é no fundo uma história de amor… E nós? Qual a nossa reposta? Temos nós o desejo e a paciência de buscar e escutar a voz de Deus que nos fala ao coração? Através dos sacramentos e da oração, sobretudo, mas também dos acontecimentos mas corriqueiros, das pessoas que nos cercam, das boas leituras e dos bons conselhos? E, quando percebemos com clareza o que Deus quer de nós, temos a coragem de responder o nosso fiat, mesmo que isso implique mudar os nossos próprios planos, como Maria e José?

            Muitas vezes o que nos atrapalha neste caminho é a noção errônea de que Deus só fala através de acontecimentos sensacionais… Pode Deus estar falando comigo, um pecador, dois mil anos após o Seu nascimento, em meio a essa vida moderna e frenética, no meu trabalho, família, círculo de amigos? E, contudo, o que pensavam Maria e José…? Como podiam acreditar que Deus falasse com eles, gente pobre e simples, em meio ao trabalho duro e à vida modesta de uma aldeia, perdida nos confins do Império Romano? Ou os Magos? Como acharam tempo de ouvir a voz de Deus em terras tão distantes, nos seus palácios, em meio as suas riquezas e aos seus estudos? Ou os pastores, cansados e preocupados com as suas ovelhas?  

            Pensamos outras vezes que a vontade de Deus tem necessariamente que se mostrar inteiramente, nalgum plano completo e acabado. E, de novo… tinham Maria, José, os pastores e os magos alguma ideia do que iria acontecer? Quando o velho Simeão prediz o sofrimento de Maria, ela certamente se espanta… E José, que não pôde nem estar no Calvário, junto à Cruz do Filho que ele tinha criado?

            Meditemos nas nossas resoluções para o novo ano. É pouco provável que Deus nos vá pedir, nesse ano que começa, feitos fantásticos ou grande aventuras piedosas. O mais certo é que Ele vá pedir o que já pede: a paciência e fidelidade do dia-a-dia.   Isso soa banal, sem graça, sem brilho. E, no entanto, é maravilhosamente heroico, belo, cheio de alegria e de amor… São Josemaria Escrivá costumava dizer que o segredo da vida é transformar o extraordinário em ordinário, e o ordinário em extraordinário.

            É isso exatamente o que Maria e José fizeram. Nada pode haver mais desconfortável do que um estábulo, nada mais corriqueiro do que uma mulher jovem que acalenta o filho recém-nascido, nada mais comum do que rudes pastores que andam no meio da noite. Para eles, que viveram essas cenas, aquilo tudo talvez se apresentasse como um anticlímax… O Messias esperado há séculos, o Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, nascer assim…? Essa criança simples, ainda mais pobre do que as outras crianças, pode ser o Filho de Deus…? A fé que nos ensinam os personagens do presépio é robusta e sólida. Eles permanecem firmes, cumprem com humildade e amor o seu papel. Que é pedido de Maria, a grande Mãe de Deus? Simplesmente que cuide do seu Filho, não mais do que isso… E isso já é tudo.       

            O teólogo inglês, Cardeal John Henry Newman, canonizado há pouco pelo Papa Francisco – junto com a nossa querida Irmã Dulce – falava sobre essa simplicidade de alma que nos leva a ver as coisas de Deus nas mais banais realidades humanas. Sendo já um homem maduro e de enorme fama intelectual, ele se converteu ao catolicismo e viveu o resto dos seus dias como modesto sacerdote católico – nunca foi bispo e o título honorário de cardeal ele o recebeu já na avançada velhice. Quando lhe perguntavam como podia se contentar com tão pouco e distinguir o que Deus queria da sua vida, ele respondia: ‘Eu não peço ao Senhor que me mostre todo o caminho, mas apenas o próximo passo. O panorama completo só Ele vê.” Newman morreu nessa mesma obscura humildade e, no entanto, nenhuma figura foi mais importante do que a dele para a renovação do catolicismo inglês e norte-americano nos últimos dois séculos.

            É geralmente assim que Deus nos mostra a Sua vontade: Ele indica apenas o próximo passo. Se os nossos dias deixarem de ser um amontoado febril de atividades para se transformarem em chances únicas de fazer o que Deus quer, então mesmo as coisas mais pequenas se nos apresentarão como uma maravilhosa façanha de amor e alegria… Não podemos escapar das dificuldades, mas podemos, com a serenidade e a força que encontramos na oração, enfrentá-las como Maria e José o fizeram.

            O que nos cabe, o que nos é possível, é dar o próximo passo, aqui e agora, confiando nos planos de Deus. Isso é o essencial. Todo o resto é relativo, vem por acréscimo. Por um paradoxo curioso determinado por Deus mesmo, as grandes coisas começam sempre pequenas. É o fermento da massa, como na parábola. Nenhum plano, por melhor que seja, se realiza sem o cuidado dos pequenos detalhes, pacientemente, um após o outro. Não é à toa que projetos realmente benéficos e bem-sucedidos, como os Alcoólatras Anônimos, de profunda orientação cristã, se baseiam num motto como ‘só por hoje’. Não é à toa que Santa Teresa de Calcutá, quando lhe perguntavam como conseguia ajudar a tanta gente, respondia: ‘Eu não consigo… Eu só consigo ajudar a esta pessoa que está agora na minha frente.’ 

            Se o novo ano trará – como sempre se deseja – sucesso, realizações e saúde, não o sabemos. Não sabemos nem se estaremos aqui para ver o seu fim. Tudo está nas mãos de Deus. Se tivermos, porém, feito o nosso melhor para responder, com alegria e amor, ao que o Senhor pede de nós – desde uma palavra boa, uma atitude humilde, uma boa-vontade de perdoar e ouvir até a coragem de rejeitarmos o pecado e de pedirmos perdão – então o ano terá sido ricamente proveitoso. E, em lugar do gosto amargo das oportunidades perdidas e do amor desperdiçado, sentiremos a alegria infinita que arde no coração de quem, humildemente, como Maria e José, dizem sim a Deus…

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[1] Monja beneditina na Abadia de Santa Walburga, Alemanha; doutora em História da Igreja contemporânea pela Universidade de Navarra, Espanha; professora de História e Doutrina Social da Igreja; autora de ‘Lições de Gustavo Corção’, Quadrante, SP.

A pedagogia de Maria

Conflitos com filhos adolescentes?? Quem aí se identifica?

As Sagradas Escrituras relatam poucas frases vindas da boca de Nossa Senhora, mas cada uma das palavras dela é fonte inesgotável de sabedoria! É um caminho seguro para aprendermos a exercer a maternidade segundo a vontade de Deus.
Na passagem do Evangelho que relata a perda de Jesus em Jerusalém e o reencontro entre o Senhor e seus pais no Templo (Lc 2, 41-52), aprendemos uma grande lição. Das palavras e da postura de Maria tiramos o modelo do que falar e como reagir quando estamos tomados pela preocupação, pela angústia e pelo sofrimento com relação aos nossos filhos. Imagine-se no lugar de Maria: há três dias procurando numa grande cidade, lotada de peregrinos, pelo seu filho adolescente. Impossível mensurar o tamanho da dor no coração de uma mãe que vive esse drama! E quando ela finalmente O encontra, o que ela diz? O que você diria para o seu filho nessa situação??…
“Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”. (Lc 2, 48).

Cheia do Espírito Santo, ela não aponta o dedo para o filho, não pretende ressaltar os supostos “erros” que Ele tinha cometido. Sabiamente, ela faz uma PERGUNTA a Ele e aponta o dedo para si mesma, revela ao seu filho aquilo que estava em seu coração. Fala de como ela estava se sentindo e o que ela estava passando. Maria se mostra transparente e expressa honestamente a sua dor. Mas não julga, não reclama, não xinga, não condena. Não ignora, não faz de conta que nada aconteceu, não coloca um sorriso falso nos lábios, não finge que estava bem.

Maria, diante de um conflito na relação pais e filhos:

1. Pergunta;

2. Fala do seu sentimento; e

3. Para para ouvir a resposta; abre-se para a escuta e o acolhimento.

Mesmo em meio à dor, ela ainda está aberta à escuta e ao diálogo, deseja entender o ponto de vista do filho.

Em resposta, porém, ela não escuta um pedido de desculpas, nem nada do que humanamente uma mãe poderia esperar. Ouve uma resposta difícil de se compreender! Poderíamos supor que, aparentemente, até um tanto “rebelde”.
“Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera.” (Lc 2, 49- 50).

Desculpe a franqueza, mas creio que, se Jesus fosse filho de outras mulheres, teria rapidamente levado um grande sermão ou mesmo um tapa na boca… Mas o que faz Maria diante desse novo desencontro? Ela guarda e medita sobre tudo aquilo em seu coração, ela se coloca em oração e vai ouvir do próprio Deus a interpretação daquilo que ela tinha vivenciado.


Maria teve a difícil missão de ter na mesma pessoa um filho para educar e um Deus para obedecer. Uma equação complicada demais para resolver… Só mesmo ela, cheia de graça e do Espírito Santo, para dar esse show de humildade!

E qual o fruto que ela colheu com sua postura? A obediência e a submissão de seu filho!
“Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.” (Lc 2, 51).

Aprendamos com Nossa Senhora a graça da maternidade humilde, a virtude de olhar para nossos filhos e ver Jesus crucificado e necessitado de tantas coisas.

Yolanda Abreu

Psicóloga clínica e educacional

A Amazônia e o Natal

Ir. Martina Braga OSB [1]


            Durante alguns anos da minha juventude, vivi com a minha família numa diocese extremamente liberal no Brasil. Algumas das coisas que vi acontecer na vida litúrgica da minha paróquia são hoje difíceis de relatar, pelo simples motivo de que os meus ouvintes não acreditam no que eu digo! Já fiz a experiência várias vezes. A maioria das pessoas acha que eu estou exagerando ou inventando um absurdo.

            Para evitar essa reação, eu me atenho geralmente a um episódio único, muito concreto, que ficou marcado na minha memória como uma profunda lição de espiritualidade. A história ocorreu numa missa normal de domingo quando eu devia ter uns catorze anos. No começo da celebração o pároco anunciou que essa seria uma ‘missa dos pobres’ e que quem não se fizesse ‘pobre com os pobres’ se sentiria fora de lugar. Como meus bons pais sempre me tinham ensinado a estar à vontade em qualquer ambiente – para eles, isso queria dizer encontrar as pessoas na sua humanidade, fosse qual fosse a sua posição social – eu achei que não precisava me preocupar.

            Ao meu lado, no banco da igreja, estava a Dona Maria. Ela era um marco histórico da paróquia, uma senhora velhinha cuja idade nem ela mesma conhecia. A Dona Maria não sabia nem ler nem escrever, morava numa casa com chão de terra e, viúva, tinha criado sozinha os oito netos que a filha e o genro, mortos num acidente, tinham-lhe deixado. Com meio metro de altura, uma pele maravilhosa, cor de ébano, uma ferida varicosa incurável na perna – o que não lhe impedia de caminhar os quatro quilômetros até a Missa – e um coração de ouro puro, a Dona Maria possuía uma sabedoria dessas que Deus dá aos ‘pequenos e humildes’, como disse Nosso Senhor.

            Depois de uma liturgia profundamente ideologizada, que nem eu nem a Dona Maria conseguimos compreender bem, chegou a hora da comunhão. O pároco distribuiu as hóstias consagradas em vasilhas usadas e encardidas – algumas quebradas – de plástico de cozinha. A Dona Maria e eu comungamos obedientemente. No fim da Missa, o padre fez um longo discurso numa terminologia que só uns poucos iniciados entenderam, e explicou que as vasilhas de plástico queriam dizer “ser pobre como os pobres”.

            Nesse momento eu vi lágrimas de prata escorrendo pelo rosto negro da minha velha amiga. Receosa de que alguma coisa tivesse acontecido, eu segurei a sua mão e perguntei-lhe o que tinha. Depois de alguns minutos de silêncio, as lágrimas prateadas rolando como cascata, ela me segredou baixinho:

            ‘Você sabe, menina, eu sempre fui muito pobre. Mas nunca fui suja nem impertinente. Quando o pároco me visita, eu sirvo o café dele na minha única xícara de porcelana, que a minha avó ganhou da sinhá, quando ainda era escrava. E eu ponho na mesa a toalha mais limpa. O pároco aceita. Mas olha como ele serve Nosso Senhor…’

            Eu nunca esqueci essas palavras. A Dona Maria faleceu não muito depois. Eu me tornei professora, fiz faculdade, mestrado e doutorado. E, no entanto, a lição que a Dona Maria me deu, com a sua sólida sabedoria, me valeu muitos dos meus livros. Eu sempre imagino que ela sorri lá do céu. 

            Acompanhando as notícias do recente Sínodo da Amazônia, as palavras e as lágrimas da Dona Maria pareceram martelar a minha consciência. Em um certo momento do Sínodo, o famoso bispo austríaco, Erwin Kräutler, missionário há muitos anos na Amazônia, declarou solene e peremptoriamente – ah, lembranças do meu pároco… – que os índios não podem entender, e muito menos viver, o celibato sacerdotal. Conclui-se, portanto, que é impossível para eles ser ou conviver com sacerdotes segundo as normas sacramentais da Igreja. Tem que haver uma nova forma de ‘liderança comunitária’, feita por homens e mulheres casados, que tomem o lugar do padre.

            Algumas horas depois, levantou-se na aula sinodal um sacerdote peruano. Bastava olhar para ele – como basta olhar para a esmagadora maioria dos padres peruanos, mexicanos, equatorianos ou paraguaios – para ver que se tratava de um índio no duro e não de alguém, como o bispo austríaco, ‘falando pelos índios’.

            O sacerdote tomou a palavra, com seriedade e discrição – ah, a minha Dona Maria… – e fez observações nesse sentido: ‘Eu sou cem por cento índio. Vivo numa cultura mestiça, mas não há em mim nenhum outro sangue que não seja o do índio da região da Amazônia peruana. E, no entanto, eu compreendo, amo e me esforço por viver o celibato. Não é fácil… mas não porque eu sou índio. Não é fácil tampouco para o Senhor Bispo, nem para os europeus missionários e nem para nenhum sacerdote do mundo, seja ele de onde for. O celibato só pode ser vivido com a graça de Deus. Eu creio que o problema aqui não é que os meus índios da Amazônia não possam entender o celibato, mas sim que os missionários europeus parecem não querer viver o celibato…’

            O meu coração exultou como se eu ainda tivesse os meus quinze anos! Acho que se eu estivesse presente na aula sinodal, eu tinha beijado a mão do padre, assim como naquela época remota eu beijei a mão da Dona Maria. A verdade tem esse efeito. Ela liberta, alegra, traz de novo paz e sentido ao mundo. E ela é mais discreta do que os gritos ideológicos.

            Na sua visita ao Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em 2013, o Papa Francisco conclamou o povo católico a ir às periferias, a buscar aqueles que estão isolados e necessitados. No entanto, ele sublinhou, o objetivo não é ficar na periferia. O objetivo é trazer as pessoas que sofrem de volta à sua dignidade de filhos de Deus e ao convívio social pleno.

            A questão que o Santo Padre sempre enfatiza é que é necessário um contato direto e pessoal com os outros. Ajudar implica em primeiro lugar interessar-se, conhecer, abrir-se à pessoa do outro, mesmo aprender com ele. Só então é possível amar de verdade, e só amando é possível ajudar realmente. A famosa admoestação do Papa, de que o pastor deve cheirar a ovelha, é profundamente autêntica. A gente reconhece a pessoa dedicada a sua vocação pelos traços que ela passa a trazer em si mesma, vindos do seu contato próximo com aquilo que ela faz.

            No entanto, o Papa diz que o pastor deve cheirar a ovelha, não virar ovelha. O pastor ama, conhece, vive com as ovelhas. Mas permanece pastor. Se não for assim, ele já não serve às ovelhas. Um médico que se interesse tanto pela doença que já não quer curá-la não é mais médico. Um cidadão que já não se importa com a corrupção na sua sociedade já não é mais bom cidadão. Um missionário que prega uma ideologia e não a fé em Jesus Cristo e na Sua Igreja não é mais missionário.

            Trata-se então de impor a fé aos outros? O nosso dever é sair pelo mundo corrigindo as pessoas que encontramos, como se nós fôssemos perfeitos? Obviamente que não. A liberdade é um presente de Deus sem o qual, a rigor, ninguém pode chegar até Ele. Nós não somos absolutamente ninguém para julgar, impor ou exigir. A nossa única missão, imitando o Cristo, é dar-nos, deixando que a luz de Deus passe através de nós, sobretudo pelo nosso exemplo. Não se trata de afirmar-nos a nós mesmos, como nos lembrava o Papa Bento XVI no discurso inaugural do seu pontificado, mas de submeter-nos humildemente à Verdade de Deus, superior a nós. 

            O missionário não é em si mesmo, portanto, um reformador social, um político, um antropólogo interessado em culturas diversas. O missionário é aquele que se aproxima dos outros para ajudá-los a descobrir a Beleza, a Justiça, a Verdade e o Consolo de Deus. Nele abunda o Amor de Deus de tal forma que ele irradia esse Amor aos outros. E isso se dá em todo lugar, desde a Amazônia até a roda de amigos.

            O desrespeito à liberdade individual é tomado hoje como argumento definitivo da condenação do trabalho missionário E, no entanto, não é este mesmo desrespeito que vemos acontecer, às vezes brutalmente, na nossa assim chamada tolerante sociedade moderna? Uma mentalidade reducionista que despreza aqueles que não se comportam segundo a moda, que não vivem de acordo com os valores da propaganda, que não seguem à risca o modo de pensar, de vestir, de falar, de planejar a vida, que a sociedade secularizada impõe? A ditadura do relativismo, como dizia ainda o Papa Bento XVI, determina uma tirania social. Coitada da jovem que, hoje em dia, é um pouco mais gordo, tem um maior número de filhos, vai à Igreja, acha que a honestidade é mais importante do que assegurar o emprego no governo ou não segue com exatidão a filosofia de vida ditada pela carreira na firma multinacional…      

            A mentalidade secularizada só aceita o trabalho missionário se ele for entendido como promoção social – coisa que é, na verdade, consequência e não essência dele. Essa mentalidade atribui às culturas um valor absoluto: os costumes externos tomam o lugar da busca individual da verdade. Evangelizar o índio se torna, portanto, um desrespeito ao índio. Obviamente isso ocorre porque aqui ele é visto em primeiro lugar como índio e depois como ser humano, dotado de liberdade e consciência. A fé cristã, ao contrário, vê nele em primeiro lugar um homem como todos os homens, que por acaso é índio. Podia ser europeu, africano ou asiático. É homem chamado por Deus para a vida eterna, como todos os outros.

            O relativismo no fundo contradiz a si mesmo. Se tudo é relativo, tampouco faz muito sentido o trabalho humanitário. Por que deveríamos ajudar os necessitados? Há culturas antiquíssimas nas quais o homem trata as suas várias mulheres como animais. É a cultura desses povos, deve-se então respeitá-la. Há sociedades nas quais a pedofilia e o tráfico sexual são prática comum. Nada se pode fazer. Há países, como o Brasil, onde a corrupção e a desonestidade se tornaram o modus vivendi de grande parte das pessoas. Inútil rebelar-se ou acusar o mal. Há meios urbanos modernos nos quais a adição à droga e outras práticas profundamente degradantes são o dia-a-dia dos jovens. É deixá-los morrer e serem mortos. Não há mais bem nem mal. Nesse sentido, o sistema judiciário acabaria sendo abolido. Que sentido faz julgar um crime? Tudo é uma questão relativa, não há mais criminoso nem vítima.

            A história da Igreja nos dá muitos exemplos de trabalho missionário que se confundiu com esforços de colonização política e material. É óbvio que isso é um erro – e os santos de todas as épocas assim o afirmavam. O missionário não pode ser um colonizador. Não pode usar a situação do outro para fomentar os seus próprios interesses materiais. Não pode impor. Mas tampouco pode mentir. E também não pode usar a situação do outro para fomentar os seus próprios interesses ideológicos.

            Geralmente são justamente aqueles que gritam ideologicamente em favor do respeito à cultura alheia os primeiros a contrariar o seu próprio preceito. Assim como o meu pároco que tomava café na porcelana do pobre mas servia a Comunhão no plástico sujo da casa do rico. Ele não conhecia o pobre. Pobre era a minha Dona Maria, limpa, genuína, verdadeira e piedosa.

            O bispo europeu diz que os índios não são capazes de entender o celibato. Por quê? Os índios não são pessoas humanas assim como os europeus? Se eles entendem, por que os índios não podem entender? Isso se parece à ofensa feita a minha Dona Maria, de dizer que, porque ela é pobre, é suja. O índio e o pobre estão aqui sendo manipulados.

            Os primeiros cristãos entendiam com muita clareza que o determinante não é a condição social, a cultura, a língua ou a origem, mas sim a fé em Cristo. Uma conversão implica necessariamente numa mudança na alma e no coração. E essa mudança individual influencia inexoravelmente a conversão da sociedade. Um cristão verdadeiro espalha ao redor de si justiça, paz, solidariedade, respeito, fidelidade, coragem, honestidade, simplesmente por ser quem é. Foi assim que os cristãos converteram o Império Romano. Sendo mártires, ou seja, testemunhas.

            Onde podemos buscar o melhor exemplo de trabalho missionário? Nos santos? Certamente. Houve e há grandes missionários. Mas os santos, sendo humanos, têm sempre falhas. O exemplo perfeito? Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele, sendo Deus, fez-se homem, em tudo igual a nós. Desceu da sua divindade e nasceu num estábulo cheirando a estrume. Cresceu, trabalhou, viveu numa família, morou numa região dominada pela violência, sofreu privações, cansou-se, chorou, sangrou e morreu como nós. Foi pobre com os pobres, homem com os homens, judeu com os judeus.

            E para quê? Para nos fazer apenas companhia na nossa miséria? Um miserável a mais? Não. Ele fez-se um de nós em tudo, mas uma coisa ele não compartilhou conosco. O nosso pecado. Para redimir-nos da nossa própria ingratidão e infidelidade contínua, Ele curou, ensinou, perdoou. E desceu então ao mais profundo da natureza humana, à dor, à tortura e à morte, para com a sua ressurreição abrir-nos o caminho da vida eterna. Ele se fez igual a nós para resgatar-nos, que fazer-nos iguais a Ele. Ele veio à periferia, conheceu-a, viveu nela, para tirar-nos dela.

            O Natal, agora próximo, lembra-nos esse fato essencial da História humana. Que a contemplação da Encarnação do Senhor nos confirme na nossa vocação de missionários, seja ela onde e como for, numa doação autêntica até o fim das nossas vidas.

            Para aqueles que andavam nas trevas da morte, uma Luz brilhou… Um Filho nos foi dado… Mesmo que os nossos pecados sejam vermelhos como a púrpura, Ele os fará brancos como a neve… Vem, Senhor Jesus!

[1] Monja beneditina na Abadia de Santa Walburga, Alemanha; doutora em História da Igreja contemporânea pela Universidade de Navarra, Espanha; professora de História e Doutrina Social da Igreja; autora de ‘Lições de Gustavo Corção’, Quadrante, SP.

A humildade da mãe, a obediência do filho: a maternidade humilde de Maria

Conflitos com filhos adolescentes?? Quem aí se identifica?

As Sagradas Escrituras relatam poucas frases vindas da boca de Nossa Senhora, mas cada uma das palavras dela é fonte inesgotável de sabedoria! É um caminho seguro para aprendermos a exercer a maternidade segundo a vontade de Deus.
Na passagem do Evangelho que relata a perda de Jesus em Jerusalém e o reencontro entre o Senhor e seus pais no Templo (Lc 2, 41-52), aprendemos uma grande lição. Das palavras e da postura de Maria tiramos o modelo do que falar e como reagir quando estamos tomados pela preocupação, pela angústia e pelo sofrimento com relação aos nossos filhos. Imagine-se no lugar de Maria: há três dias procurando numa grande cidade, lotada de peregrinos, pelo seu filho adolescente. Impossível mensurar o tamanho da dor no coração de uma mãe que vive esse drama! E quando ela finalmente O encontra, o que ela diz? O que você diria para o seu filho nessa situação??…
“Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”. (Lc 2, 48).

Cheia do Espírito Santo, ela não aponta o dedo para o filho, não pretende ressaltar os supostos “erros” que Ele tinha cometido. Sabiamente, ela faz uma PERGUNTA a Ele e aponta o dedo para si mesma, revela ao seu filho aquilo que estava em seu coração. Fala de como ela estava se sentindo e o que ela estava passando. Maria se mostra transparente e expressa honestamente a sua dor. Mas não julga, não reclama, não xinga, não condena. Não ignora, não faz de conta que nada aconteceu, não coloca um sorriso falso nos lábios, não finge que estava bem.

Maria, diante de um conflito na relação pais e filhos:

1. Pergunta;

2. Fala do seu sentimento; e

3. Para para ouvir a resposta; abre-se para a escuta e o acolhimento.

Mesmo em meio à dor, ela ainda está aberta à escuta e ao diálogo, deseja entender o ponto de vista do filho.

Em resposta, porém, ela não escuta um pedido de desculpas, nem nada do que humanamente uma mãe poderia esperar. Ouve uma resposta difícil de se compreender! Poderíamos supor que, aparentemente, até um tanto “rebelde”.
“Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera.” (Lc 2, 49- 50).

Desculpe a franqueza, mas creio que, se Jesus fosse filho de outras mulheres, teria rapidamente levado um grande sermão ou mesmo um tapa na boca… Mas o que faz Maria diante desse novo desencontro? Ela guarda e medita sobre tudo aquilo em seu coração, ela se coloca em oração e vai ouvir do próprio Deus a interpretação daquilo que ela tinha vivenciado.


Maria teve a difícil missão de ter na mesma pessoa um filho para educar e um Deus para obedecer. Uma equação complicada demais para resolver… Só mesmo ela, cheia de graça e do Espírito Santo, para dar esse show de humildade!

E qual o fruto que ela colheu com sua postura? A obediência e a submissão de seu filho!
“Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.” (Lc 2, 51).

Aprendamos com Nossa Senhora a graça da maternidade humilde, a virtude de olhar para nossos filhos e ver Jesus crucificado e necessitado de tantas coisas.

Yolanda Abreu

Psicóloga clínica e educacional

Advento: Tempo de Esperança

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu… tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou…tempo de chorar e tempo de rir… tempo de procurar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de jogar fora… tempo de calar e tempo de falar…Tempo de amar e tempo de odiar… tempo de guerra e tempo de paz.” O livro do Eclesiastes  nos lembra que para tudo existe um tempo. Entramos no tempo do Advento. Tempo de espera, de renovar em nossos corações a esperança em Jesus que virá. Este é o grande sinal do primeiro tempo do Ano Litúrgico, o tempo da esperança, do cumprimento da promessa e da paz. 

Esse tempo de espera deve ser para nós, cristãos, uma preparação para vivenciarmos a alegria prometida. A expectativa do Natal que se aproxima, deve ser, também, um tempo de reflexão das nossas atitudes. O Advento nos dá a oportunidade do arrependimento de nossas faltas e a busca de um tempo novo em nossas vidas: Tempo de amar, de servir, de perdoar, de promover a paz

Colocando a raiva para fora

“Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.” (Ef 4, 26- 27).

Eis uma chave de leitura fundamental para aprender a lidar com a raiva dos pequenos: é preciso aprender a separar o sentimento do comportamento. Ou seja, raiva e pecado não são a mesma coisa!

A emoção da raiva, assim como todas as outras emoções, faz parte da vida de toda pessoa humana. Sentir raiva é saudável e adaptativo, ou seja, útil para a sobrevivência da espécie e para o desenvolvimento infantil.

Não devemos reprimir ou proibir a criança de experimentar essa emoção, simplesmente porque isso não funciona.

A raiva é como o “xixi”, alguma hora tem que ser colocada para fora. Mas, assim como ensinamos a criança a fazer xixi no local apropriado e de maneira adequada, também devemos ensiná-la a expressar a raiva de maneira saudável e construtiva. E para isso precisamos distinguir a raiva do comportamento que fazemos com a raiva.
É no comportamento que está o pecado que nos fala São Paulo na carta aos Efésios. Ao comportamento da criança nos cabe dizer se está certo ou errado, se é bom ou prejudicial. Mas não devemos julgar a emoção como errada ou ruim, ela faz parte da gente e nossa tarefa é saber administrá-la bem. A raiva torna-se um pecado (a ira – pecado capital) apenas quando é consentida pela vontade, ou seja, quando ficamos ruminando e alimentando livremente aquele sentimento em nosso coração.

Que caminho seguir, então? São Paulo nos ensina: “não se ponha o sol sobre a vossa ira.” (Ef 4, 27).

A raiva saudável não foi feita para ser estocada dentro da criança (e elas são muito sábias em pôr isso para fora). Caso contrário, a pessoa vai desenvolvendo uma espécie de, desculpe a expressão, “prisão de ventre” emocional. E sabemos como isso pode ser prejudicial para a saúde dos pequenos (e dos grandinhos também). É importante experimentar e expressar a raiva e mesmo assim não pecar!

O diferencial está em REDIRECIONAR a raiva, canalizando toda essa energia para comportamentos saudáveis e construtivos, que faça bem para os outros e para si mesmo.
Esse processo começa quando a gente dá nome para a RAIVA, aceita que ela está ali (e pode ser nossa amiga) e cria junto com o filho um outro caminho para ela poder fluir.
Deixo aqui apenas alguns exemplos de como abordar isso numa conversa com a criança:

▪ Filho, você está sentindo o quê? Será que você está com raiva, é isso? (Pode ser outra emoção e é a criança que vai nos dizer).
▪ Você pode sentir raiva, tudo bem (SENTIMENTO). Eu entendo que você está muito chateado com o que aconteceu. Às vezes eu fico muito zangada também, sei como isso é ruim…
▪ Mas o que você não pode é fazer isso (bater/ xingar/ quebrar objetos etc. – COMPORTAMENTO)
▪ Vamos pensar juntos: que outra coisa a gente pode fazer quando está sentindo a raiva?
Você pode dizer para o outro que não gostou do que ele fez?
Quer fazer um desenho ou escrever como você está se sentindo?
Você pode me dizer o que você queria que acontecesse para você se sentir melhor?
Você quer um abraço ou um colo para se acalmar?
Será que você consegue contar até dez comigo para mandar a raiva embora e a gente conversar com calma?
Você gostaria de uma bola (papel, almofada, massinha etc. ) para poder colocar a raiva para fora?

Mas deixo um alerta: isso só dá certo se a gente não está também “contaminado” pela raiva ou outra emoção negativa (vergonha, culpa etc.). Se estamos cheios de raiva, primeiro cuidamos da NOSSA PRÓPRIA raiva para depois ensinar o filho a cuidar bem da raiva que mora nele.

A Maravilhosa História de Marthe Robin


A Serva de Deus Marthe Robin nasceu em 13 de março de 1902, na cidade de Châteauneuf-de-Galaure, França. Filha de camponeses, Marthe passará toda a sua vida na casa paterna, em sua pequena aldeia rural. De saúde frágil desde a infância, Marthe nem pôde completar a escola primária.
Em 1918 começa a apresentar os sinais da tremenda doença que nunca mais a deixará: encefalite. Seguiram-se muitas tentativas de tratamento médico, mas em vão. Ao mesmo tempo em que a doença avançava, Marthe também progredia na vida espiritual. Em 1925, inspirada pelo exemplo de Santa Teresinha, Marthe oferece-se como Vítima ao Amor Misericordioso.


Em 1928, durante uma missão pregada em sua paróquia, Marthe compreende claramente que é na doença e através da doença que ela é chamada a servir a Deus, unindo-se incessantemente ao mistério da Paixão do Senhor, pela salvação das almas.

Em 1929 Marthe fica tetraplégica e passa a sofrer uma paralisia total das vias digestivas, de modo a não poder engolir alimento algum. Os movimentos de deglutição lhe eram simplesmente impossíveis. E assim permanecerá até a sua morte, em 1981, ou seja, por 52 anos.

Cinquenta e dois anos de martírio, pregada à cama, sofrendo silenciosamente, na mais inteira resignação à Santíssima Vontade de Deus; cinquenta e dois anos de Calvário e amor!

Pois foi a essa alma tão simples e humilde que Deus escolheu para elevar a mais perfeita união à Paixão de Jesus: em 1930, numa sexta-feira, Marthe recebe os estigmas e cai num estado de morte aparente, revivendo misticamente em seu próprio corpo e alma todos e cada um dos tormentos padecidos por Jesus da noite da Quinta-Feira Santa até o momento da morte.

Durante 50 anos Marthe viverá sem comer, sem beber e sem dormir, desconcertando todos os médicos que a examinaram… 

Marthe recebia a Comunhão, seu único alimento, apenas uma vez por semana, em seu próprio leito de dor.

Comungava sempre ao anoitecer da quarta-feira, podendo os que a acompanhavam literalmente despedir-se dela antes da Comunhão.

Com efeito, após comungar Marthe caía num êxtase profundo, do qual, nos últimos anos de sua vida, só despertava na segunda-feira seguinte – ou seja, cerca de 5 dias seguidos em êxtase a cada semana! 

Da noite de quinta-feira até a tarde da sexta de cada semana, Marthe revive a Paixão de Jesus, isto é, sente em si mesma tudo o que sofreu Jesus, física e moralmente. Depois das 15 horas da sexta, Marthe caia num estado de morte aparente, não dando praticamente sinal nenhum de vida até o domingo, quando ‘ressuscitava’ junto com Jesus, embora só despertasse totalmente do êxtase na segunda-feira.

Era como se Marthe morresse e ressuscitasse a cada semana. Tanto assim que, quando ela morreu de verdade, várias pessoas duvidaram de que estivesse mesmo morta e temeram sepultá-la viva…

Como dissemos, Marthe, devido à doença, não tinha os movimentos deglutitórios, não sendo capaz de engolir nem o menor alimento. Como comungava então? Maravilha da bondade onipotente de Deus: o sacerdote, qualquer que fosse, apenas precisava aproximar a Santa Hóstia dos lábios de Marthe e… a Hóstia entrava como que por si mesma na boca dela, sem Marthe ter de fazer qualquer movimento. O sacerdote chegava a sentir a Hóstia ‘escapando’ por si mesma de seus dedos, para desaparecer em seguida entre os lábios imóveis da privilegiada criatura que então também desaparecia do comércio dos vivos, abismando-se na mais profunda contemplação por dias inteiros.

Pelo tempo da Segunda Guerra Mundial, sendo urgente uma reparação ainda mais forte, Marthe também ficou cega, e pelo resto da vida…

Jesus disse à Marthe, num de seus êxtases, como ela confiou ao seu diretor espiritual, o Padre Finet, que, depois da Virgem Maria, ninguém jamais participou nem participará tanto de Sua Dolorosa Paixão, quanto ela, Marthe Robin. Misterioso desígnio de Deus, que reservou o sacrifício da maior de todas as Vítimas, depois de Jesus e Maria, precisamente para o nosso século de impiedades jamais vistas…

Compreende-se, pois, a fúria violenta de Satanás contra este vaso de eleição: Marthe era violentamente espancada por uma mão invisível, e isso diante de presentes, ao ponto de o seu diretor, o Padre Finet, convidar padres que não acreditavam no demônio a fazerem uma visita a Marthe ao cair da noite e verem com seus próprios olhos as impressionantes cenas de terror que lá se desenrolavam…

E o mais singular destas violências satânicas padecidas por Marthe foi que Deus permitiu ao demônio ir realmente até o fim em sua crueldade: Marthe Robin morreu assassinada pelo próprio demônio, na tarde de sexta-feira de 6 de fevereiro de 1981…

Antes de entrar neste seu último e definitivo êxtase, Marthe avisou o seu confessor que “desta vez Deus permitirá que o demônio vá até o fim”. Com efeito, ao entardecer da sexta-feira, quando o Padre Finet entrou no quartinho de Marthe, encontrou-a jogada no chão, já sem vida…


(Marthe no dia de sua partida para o Céu)

E como seria possível que esta mulher que não comia nem bebia pudesse perder sangue abundantemente cada vez que os estigmas se renovavam?
Como poderia uma criatura humana agüentar décadas sem dormir, sem beber água?
Marthe foi examinada por vários médicos e todos confirmaram não haver explicação científica alguma para o que se passava com ela.
Detalhe importantíssimo: todo esse oceano de méritos adquiridos por Marthe em sua vida de imolação, foram entregues, por determinação de Deus mesmo, nas mãos da Virgem Maria, segundo o método de São Luis Maria de Montfort.
Marthe não conhecia o “Tratado da Verdadeira Devoção à Ssma. Virgem”, nem havia em sua aldeia um exemplar sequer deste. Um belo dia, porém, logo nos primeiros tempos da vida mística de Marthe, seus familiares entraram em seu quarto e viram um livro desconhecido ali, à cabeceira da doente. Era precisamente o Tratado da Verdadeira Devoção. Marthe contou então que Nossa Senhora mesma lhe aparecera com aquele livro nas mãos e o deixara ali, para ela…

Jesus e Maria pediram a Marthe que dissesse ao seu diretor espiritual para dar início a uma obra de casas de retiro de silêncio, que se espalharia pelo mundo, fazendo um imenso bem às almas. Era a obra que viria a chamar-se: “Foyer de Charité” (“Lar de Caridade”).

Já na década de 1930 começavam os Foyers, com toda a aprovação da Igreja. Hoje são mais de 80 Foyers pelo mundo, em mais de 40 países.

Cada Foyer é uma casa de retiros, na verdade uma comunidade dedicada aos retiros: no Foyer vivem permanentemente sacerdotes e leigos, numa vida de oração, trabalho e silêncio (quase monástica de fato), e uma vez por mês, pelo menos, recebem uma turma de retirantes para retiros de silêncio de 5 dias no mínimo.

Logo no começo dos Foyers alguém propôs se os retiros para o público não poderiam ser de dois ou três dias, como em outras obras. Nossa Senhora, porém, mandou dizer, através de Marthe, que cinco dias era o número mínimo marcado por Deus para um retiro no Foyer ter frutos.

E assim se faz: os retirantes costumam chegar no entardecer de uma segunda-feira e ficar até a manhã do próximo domingo. E em silêncio perfeito: não se trocam nem saudações desde o jantar da segunda-feira até o jantar do sábado. Inviolavelmente. 


(Vista de um dos Foyers na França)

Fonte: http://silvianeperegrina.blogspot.com/2011/09/milagre-eucaristico-maravilhosa.html

Amar a Igreja? Ainda é possível?

Ir. Martina Braga OSB[1]


[1] Monja beneditina na Abadia de Santa Walburga, Alemanha; doutora em História da Igreja contemporânea pela Universidade de Navarra, Espanha; professora de História e Doutrina Social da Igreja; autora de ‘Lições de Gustavo Corção’, Quadrante, SP.

            Há um episódio, encontrado aqui e ali em fontes muito diversas, que certamente tem um quê de fundo histórico. É uma história por demais realista para ter sido inventada. Em qualquer caso, tendo acontecido ou não, a narração traz em si uma verdade muito profunda que, me parece, merece ser lembrada e repetida.  

            No século XV, em plenos tempos da Renascença, moravam em Paris, França, um cardeal e um judeu. Eles tinha estudado juntos, conheciam-se muito bem e eram excelentes amigos. Sendo ambos pessoas piedosas e tendo grande confiança um no outro, era natural que nas suas longas conversas o assunto religioso sempre viesse à tona.

            O judeu procurava convencer o cardeal de que Jesus não podia ser o Messias esperado. Os cristãos não se parecem nada com o povo santo da nova e gloriosa Jerusalém, ele argumentava. O cardeal, por sua parte, retorquia ao amigo: ‘Vive o cristianismo profundamente, descobre a Jesus pessoalmente, e tu verás que Ele é quem que tu procuras…’ Os dois sorriam, a discussão parava aí e a estima mútua permanecia inabalada.

            Até um dia em que o judeu anunciou ao amigo, com um sorriso maroto: ‘Negócios importantes me chamam em Roma por três meses. Parto amanhã. Quem sabe agora não me converto? Se tu rezares especialmente ao teu Jesus…’

            Para sua surpresa, o cardeal alarmou-se. ‘Roma? Precisas mesmo ir lá? Por que não resolves teus assuntos por cartas?’

            ‘Ora, ora, e eu pensei que a notícia te deixaria exultante! Lá, ao pé do túmulo do Apóstolo Pedro, não é a oportunidade de ouro que tu esperavas para que o meu espírito abraçasse a tua fé?’

            O cardeal calou-se e o seu rosto sério mostrava uma grande preocupação. Ele sabia bem que a Roma da Renascença era o pior exemplo que o seu amigo poderia ter da religião cristã. Nepotismo, orgulho, avareza, politicagem, luxúria… nada disso faltava no clero romano, e nem mesmo no palácio pontifício. O bom judeu era um homem de vida honrada e honesta, sua conversão era agora um caso perdido. Que ironia… o amigo iria a Roma e ela seria causa do seu afastamento definitivo da Igreja.

            O bom cardeal suspirou. ‘Que o Deus único e todo-poderoso te guarde, meu velho companheiro. O único que eu te peço é que perdoes a fraqueza dos cristãos… e não meças por eles a divindade do Mestre…’

            Os três meses se passaram. O cardeal rezava todos os dias pelo bom judeu mas a certeza de que este regressaria indignado e definitivamente fechado a qualquer centelha de fé cristã deixavam-no acabrunhado e triste.

            Numa tarde de inverno, sentindo-se velho e cansado, o bom sacerdote rezava o seu rosário junto ao fogo já meio apagado da lareira e pedia à Virgem Mãe que olhasse pela Igreja em tão doloroso estado. Nisso bateram à porta e, antes que ele pudesse levantar-se, lá entrou o seu velho amigo judeu.   

            Vinha bronzeado, sua espessa barba tinha sido aparada, seus olhos brilhavam com típicas inteligência e bondade. E, no entanto, algo nele parecia novo, diferente… O cardeal levantou-se e estendeu as mãos. Seu coração se preparara para escutar as palavras amargas que o outro certamente lhe diria acerca da sua viagem. Qual não foi a sua imensa surpresa quando o judeu se ajoelhou diante dele e disse, com voz firme mas comovida:

            ‘Eu peço que tu me instruas nas verdades da fé cristã e me batizes. Logo que possível.’

            Seria uma brincadeira de mau gosto? Não, isso não combinava com o amigo, homem piedoso e sério… O cardeal perguntou, confuso:

            ‘O que houve? O que tu estás dizendo? Ser batizado? Mas então Roma…’

            ‘Roma é uma das cidades mais corruptas que eu já visitei. O clero é lastimável e a política eclesiástica um escândalo. Luxo e miséria convivem lado a lado, rodeados de intrigas, interesses escusos, e carreirismo. O celibato é praticamente desconhecido. O orgulho insuportável.”

            ‘E no entanto…? Tu pedes ainda o batismo? Não entendo…’

            ‘Meu bom amigo, eu tenho uma longa experiência e uma intuição infalível para achar objetos de valor. Eu posso detectar a autenticidade de uma pedra preciosa mesmo que ela esteja coberta de lama ou envolta na poeira dos séculos. Em Roma eu vi essa lama e essa poeira. Mas a pérola estava lá. Em meio à toda aquela corrupção permaneciam inalteráveis a beleza da liturgia, a força dos sacramentos, a autenticidade da palavra de Deus. Mesmo o clero, que perde as almas pelo seu mal exemplo, prega ainda uma verdade que é superior a eles. Se eles seguissem o que eles mesmos dizem, seriam santos. E da boca do Santo Padre, ainda que não das suas ações, saem doutrina e moral íntegras. Mais do que tudo, em meio a toda aquela balbúrdia, eu vi pessoas – sacerdotes, religiosos e leigos – que vivem com sacrifício e modéstia os mandamentos de Jesus. Gente cheia de caridade, de humildade e de fé. Eu descobri a pedra preciosa. Uma igreja que, apesar de todo o pecado dos seus membros, sobrevive mil e quinhentos anos com a sua doutrina perene e é capaz de suscitar pessoas santas em meio ao lamaçal do mundo, só pode ser verdadeira. É Deus que está por trás dela. Eu creio agora no Senhor Jesus.’

            Nós vivemos no século XXI. Temos a graça imensa de presenciar uma longa sucessão de papas santos. Roma não é mais hoje a Roma da Renascença. Os exemplos de vida sacrificada e dedicada a Deus são também inúmeras na nossa Igreja – quantos santos modernos canonizados, alguns dos quais nós vimos ainda nosso meio!

            E, no entanto, também nos nossos tempos há a lama e a poeira. O carreirismo eclesiástico, a falta de firmeza na fé, o mundanismo, o deslumbramento perante a riqueza e a fama, a falta de fidelidade, a superficialidade e a fraqueza de caráter, a corrupção ideológica da doutrina e da moral, tudo isso são problemas que atingem a todos nós, católicos modernos, clérigos, religiosos e leigos. E quando isso chega a pecados gravíssimos como os abusos sexuais e a blasfêmia com relação aos sacramentos, a dor de todo o povo de Deus é imensa e as vítimas, diretas ou indiretas, incontáveis. Deus tenha piedade de nós.

            Nada disso, porém, destrói a pedra preciosa. Ela permanece lá, ainda que coberta de detritos. E é nela que está posta a nossa fé, não nos detritos. E a ela que nós devemos amar, não a sujeira que a envolve. Quando nós dizemos no Credo: eu creio na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, o que dizemos é que cremos nesta pedra preciosa, na esposa mística de Cristo, na sociedade daqueles que, pela sua vida santa, seguem os ensinamentos do Bom Pastor.

            Cremos na palavra de Deus, na reta doutrina, na moral íntegra e pura, na força dos sacramentos, na comunhão dos santos que fazem parte da Igreja, aqui e no céu. Cremos que Deus garante a infalibilidade do Santo Padre em questões de fé. Cremos na união dos bispos com o papa. Cremos no valor da ordenação sacerdotal. Cremos na autenticidade da vida consagrada a Deus. Cremos na santidade das famílias. E isso tudo apesar dos defeitos individuais que todos esses membros – nós entre eles – possam ter.

            Por quê? Em última análise porque cremos em Nosso Senhor Jesus Cristo, fundador e cabeça da Igreja, e na Sua promessa de que as portas do inferno – por mais que tentem – não prevalecerão contra ela. Na Igreja há lama e sujeira deixada pelo pecado, mas só nela descobrimos, por baixo dessa crosta impura, a pedra preciosa, única e verdadeira. Fora dela pode haver, aparentemente, menos poeira. Mas não há nada mais do que bijuteria. A pedra preciosa é o Senhor, Ele mesmo, e as Suas promessas.

            Em tempos de crise, em temos de lamaçal, agarremo-nos com amor à pedra preciosa e não a percamos de vista: a palavra de Deus, os sacramentos, a vida de santidade, a fidelidade às nossas promessas, a obediência ao magistério legítimo da Igreja, o exemplo e a intercessão dos santos, especialmente da Bem-aventurada Virgem Mãe. Ancorados e seguros, podemos lutar contra as tempestades sem que elas nos atinjam. Podemos manter a serenidade e a alegria dos confessores e dos mártires. Podemos saber-nos sempre acompanhados do céu. Podemos ser firmes na esperança, na fé e na caridade. Podemos seguir adiante, seguros de que o mundo passará, mas o Cristo permanece o mesmo na Sua Igreja, ontem, hoje e sempre.  

Semana Como Um Novo Pentecostes

Quer mergulhar mais fundo nas profundezas do Amor de Deus?

Dos dias 11 a 15 de novembro, em nossa Paróquia (Nossa Senhora de Fátima RTS – Méier), será realizada a semana “Como Um Novo Pentecostes”.

Será cinco dias de intensa oração a Deus, que derramará bênçãos através da sua doce presença, capaz de restaurar o nosso coração onde o Espírito Santo nos dará a graça de permanecermos unidos a Ele em todas as circunstâncias e sermos renovados pela sua ação.

A semana “Como Um Novo Pentecostes” terá dois horários para que todos possam participar deste momento de graças. O primeiro das 15h às 17h e o segundo, das 19h30min às 21h30min.

Não perca! Venha participar dessa semana de intensa oração a Deus.