Fé e bom-senso

Ir. Martina Braga OSB

Estamos em tempos de Páscoa e de pandemia. Duas realidades que parecem à primeira vista irreconciliáveis. Uma nos traz a esperança da vida eterna e da vitória final sobre a dor; a outra nos depara concretamente com a doença e a morte. De um lado a beleza da fé, a alegria da alma, a confiança num poder que transcende todas as dificuldades. De outro, o realismo do sofrimento e da vulnerabilidade da vida humana. A Páscoa nos propõe o ponto mais alto da nossa fé. A pandemia nos depara com a necessidade premente de usar a nossa razão. Mundos distintos e separados?

Imaginemos dois casos extremos, raros naturalmente, mas que nos ajudam a ir ao âmago da questão. Duas pessoas são infectadas pelo vírus. Uma mulher, crendo-se muito religiosa, está convencida de que Deus vai salvá-la e se recusa peremptoriamente a seguir quaisquer medidas indicadas pela saúde pública. ‘Isso é falta de fé!’ brada ela. ‘Quem crê em Deus não precisa desses cuidados inúteis.’ Consequente com a sua loucura, ela desdenha lavar as mãos e evitar contatos. Seus únicos remédios são orações contínuas e toda sorte de práticas supostamente piedosas. Mesmo já infectada e padecendo no hospital, ela ainda se rebela contra os médicos e enfermeiros e vem, enfim, a falecer, repetindo, teimosa até o último minuto, que não tem necessidade de ajuda humana.

Uma vez na vida eterna, ela se queixa, naturalmente com veemência, de não ter sido salva. ‘Quantas e quantas chances Eu te dei para isso, minha filha’, responde-lhe Deus. ‘As medidas prudentes que todos tomaram, os conselhos dos amigos e depois os médicos e enfermeiros que fizeram tudo para te salvar. Mas a tua falta de bom-senso não viu a minha Mão em todas essas circunstâncias. Eu tinha grandes planos para a tua vida ainda… mas tu não ouviste a minha Voz através de tantas pessoas boas ao teu redor. Família e amigos sofrem agora por causa da tua morte desnecessária.’

Neste mesmo dia falece o nosso segundo caso: um homem de ciência, de longa experiência acadêmica, brilhante orador e ateu convicto, descrente de tudo o que não se possa ver, experimentar e provar. Apesar de todas as medidas de higiene levadas a cabo com exatidão, é infectado. ‘Um lapso nas leis de probabilidade’, afirma ele e segue rigidamente todas as recomendações dos médicos. A doença piora, ele é internado, passa muito mal, respira com dificuldade. Depois de alguns dias, perplexo, amargurado e não podendo nem entender nem resistir ao sofrimento, o grande cientista, num momento em que está consciente e sozinho, agarra um vidro de calmantes e os engole todos. Os médicos tentam ainda reverter a situação, mas sem sucesso.

Uma vez chegado, e com que surpresa, à vida eterna, ele pergunta a  Deus o que lhe faltou fazer para que tivesse podido viver. ‘Nada, meu filho’, responde o Senhor. ‘Tudo foi bem feito e os médicos agiram corretamente. Em dois dias, teus pulmões já estariam melhores e em uma semana tua saúde estaria em plena recuperação. Eu tinha grandes planos para a tua vida ainda… mas tu não ouviste a minha Voz no fundo do teu coração. O mundo da ciência sofre agora por causa da tua morte desnecessária.’

No primeiro caso, encontramos certamente uma pessoa de fé. Ela crê tão firmemente na existência de Deus e no fato de que Ele olha por ela, que chega a preferir a morte a renegar, segundo lhe parece, essa confiança. Não lhe falta fé, o que lhe falta é bom-senso e humildade. Uma observação psicológica mais profunda faz descobrir nessa fé aparentemente exemplar uma atitude de teimosia, ignorância e imprudência, por trás da qual se esconde talvez muito egoísmo e orgulho.

No segundo caso, o nosso cientista se suicida num ato de lógica irretorquível. A doença é uma ameaça clara e inteligível contra a qual há que agir-se de forma inteligente e disciplinada, e assim ele o fez. Por formas que a ciência pode igualmente explicar, a infecção não pode ser evitada. Os cuidados são intensificados, o paciente é internado e tratado racional e prudentemente. E então começam a aparecer fatores que a razão sozinha já não logra abarcar… O nosso cientista se vê agora ante uma situação que para ele não faz sentido. Por quê ele foi infectado, quando tantos outros, menos cuidadosos, não foram? Como enfrentar o sofrimento físico? Que sentido tem a profunda prostração da doença? Vale a pena continuar a viver? Todas essas são perguntas são perfeitamente racionais, legítimas e importantes. Mas ele, o homem sem fé, não encontra respostas que o satisfaçam agora, por mais excelentes e verdadeiros que sejam seus livros científicos. A ciência explica, em grande parte, os ‘comos’ do mundo material e isso é um avanço gigantesco no serviço à humanidade. Mas ela não pode responder aos ‘porquês’ filosóficos. No seu desespero vazio, o cientista se suicida. O que lhe faltou não foi o discernimento racional mas sim a humildade da esperança e da confiança.

Sua atitude parece, à primeira vista, perfeitamente inteligente. E, no entanto, vislumbramos nesse fim abrupto da própria vida algo de profundamente emocional e não racional. A mesma razão que faz dele um grande acadêmico deveria nesse momento levá-lo a considerar que pode haver elementos que ele ainda desconhece. O bom-senso deveria fazê-lo olhar ao seu redor e reparar em como outras pessoas sofrem como ele, sem ter o vazio que lhe enche o coração. A sua sinceridade científica deveria fazê-lo perguntar-se se de fato não existe algo mais do que o que ele pode ver e experimentar. A sua racionalidade, se verdadeira, não pode afirmar empiricamente a existência de Deus, mas tampouco pode negá-la… Pode ser que Deus exista… e, se Ele existe, pode ser que haja sentido para a vida, mesmo com o sofrimento. Pode ser que a esperança, o amor, a bondade, a coragem sejam elementos tão reais e verdadeiros do ser humano como o seu peso, a sua circulação sanguínea, os seus batimentos cardíacos… E talvez ainda mais reais e verdadeiros, porque permanecem quando esses outros vão-se apagando…

Se Deus de fato existe e se Ele é o criador do universo, Ele é também, obviamente, o criador da razão e da liberdade humanas. Essas prerrogativas são, na realidade, o que nos faz semelhantes a Ele. Qualquer negação da inteligência e da liberdade vem a ser uma negação de Deus mesmo. Ele poderia ter-nos feito marionetes, que nem podem alcançar nem corresponder ao seu Amor. Mas não. Ele quis dotar-nos de discernimento e de livre arbítrio. Quanto mais reconhecemos e usamos as nossas capacidades humanas, mais religiosos somos, por assim dizer, no sentido de que nos fazemos mais e mais semelhantes ao Criador. O que nos pode afastar de Deus não é o uso da razão e da liberdade, mas a falta de amor que anda geralmente unida à ausência da fé. Perdemos o rumo, já não sabemos qual é o objetivo maior, e acabamos transformando a nossa inteligência e liberdade – boas e essenciais em si mesmas – em instrumentos de destruição.

Quem tem fé sólida não só não despreza a razão como sabe que ela é das formas mais altas de louvor a Deus. Todo tipo de fanatismo religioso é, no fundo, uma falta de fé e uma adesão, disfarçada de piedade, a tiranias políticas, culturais, emocionais ou psicológicas. A fé é assim instrumentalizada, vira a desculpa, a pseudo justificativa de ações que, na verdade, nascem de interesses que nada têm a ver com o amor, a bondade, a paz, o perdão. As assim chamadas guerras de religião entre protestantes e católicos na Europa do século XVII foram simples guerras de expansão política. Os episódios de ‘caça às bruxas’, realizados tanto em territórios católicos – sobretudo a Alemanha, como em protestantes – sobretudo os Estados Unidos, são produto do medo de perder a hegemonia cultural de um grupo social. A crueldade abominável com relação aos judeus nasce da propaganda nacionalista, racista, da ignorância histórica e, em grande parte, dos interesses econômicos. O atual terrorismo islâmico choca os muçulmanos realmente sinceros e fieis.   

A fé, quando verdadeira, tem na razão uma aliada incondicional e reconhece a voz de Deus também nas circunstâncias naturais e materiais, assim como nas espirituais. O Evangelho, desde a Anunciação do Anjo a Maria até as palavras de Jesus após a Ressurreição, está cheio desse bom-senso simples e forte. Tudo o que de sentimental e absurdo se conta sobre as histórias dos santos é fruto de sentimentalismo, mesmo se bem intencionado. Basta olharmos o bom-senso de uma Madre Teresa, o brilhantismo acadêmico de um João Paulo II, a quase inacreditável capacidade administrativa de um São Vicente de Paula, o humor sábio de um São Francisco de Sales, o realismo de uma Santa Teresa d’Ávila, a prudência que São Bento exige na sua Regra monástica, o nível intelectual que vemos nas cartas que um dos grandes nomes da Renascença como São Thomas More escreveu da prisão, pouco antes de ser martirizado. E tantos e tantos outros exemplos, a começar pelos nossos papas atuais. No nosso Brasil, a determinação e a força de caráter de uma Santa Dulce dos Pobres.

A fé está ancorada na razão mas vai mais além, obviamente. A razão é algo natural; a fé é sobrenatural, um dom de Deus que nós podemos, na nossa liberdade, aceitar ou rejeitar. É inútil uma pessoa de fé querer impor a fé aos outros a golpes de argumentações racionais porque a razão não pode provar a fé. Por outro lado, e pelo mesmo motivo, a razão não pode negar a fé e é da mesma forma inútil ao ateu querer impor a sua descrença aos outros a golpes de argumentações empíricas. Aqui os dois mundos são distintos mas um não pode negar o outro.

No seu clássico livro ‘Introdução ao Cristianismo’, argumentava Josef Ratzinger, então Professor da Universidade de Tübingen e mais tarde Papa Bento XVI, com a sua finura e perspicácia habituais, que a dúvida existe – e tem que existir – para ambos os lados. O homem de fé tem que se perguntar se faz realmente sentido acreditar. E o ateu deve se perguntar igualmente se, quem sabe, Deus não existe realmente… Ambas as questões são autenticamente humanas: não fazê-las a si próprio é sinal de um intelecto e de uma sensibilidade reduzidos e pouco sinceros.

Ante a Ressurreição do Senhor, os discípulos reagem com espanto e incredulidade. É óbvio que fosse assim. A Páscoa é, aos olhos da mera razão humana, inexplicável. Mas não é absurda nem irracional… Faz sentido, enorme sentido – na verdade o único sentido – para toda a vida e a pregação do Senhor. Sem a Ressurreição, como diz São Paulo, tudo isso seria vão. A razão humana é como o fundamento, o pedestal; a fé é como a estátua que se levanta, alta, no ar. Sem a razão, a fé não se mantém e desaba. Sem a fé, a razão permanece no chão, incapaz de ir além de si mesma, de entender o porquê do mundo e da vida. Fé e razão são, como escreveu São João Paulo II na sua famosa encíclica, como as duas asas de um pássaro. Elas não se compensam, uma apenas limitando os exageros da outra… elas na verdade se complementam plenamente, e só juntas logram levar o homem adiante no seu caminho de vida. A falta de uma delas desequilibra a vida assim como o pássaro não logra voar com uma asa só.

Um ateu pode ser tão irracional – e portanto perigoso – quanto um fanático religioso. Ambos são imunes ao bom-senso quando se trata dos seus próprios argumentos. Eles se encontram em extremos opostos mas que se tocam. Um minimiza a dimensão material, outro a dimensão espiritual. Um se recusa a crer na importância de fatores médicos, biológicos, culturais. Outro se recusa a crer na existência de elementos que sobrepassam a mera matéria. Um terrorista religioso age geralmente no auge da emoção, indiferente à serenidade da razão. Um frio racionalista, ao contrário, age como uma máquina, indiferente a quaisquer valores da alma e do coração. O primeiro mata e tortura gente inocente aos gritos, violentamente, inflamado pela sua pseudo fé. O segundo abandona e tira a vida de gente inocente com uma mecânica intervenção médica, sem pestanejar nem sentir nenhum remorso. Qual dos dois é o pior? Só Deus sabe.   

Voltemos à Páscoa e à pandemia e consideremos agora como, no fundo, as duas realidades se encontram. A Páscoa só tem sentido por causa do sofrimento humano, ao qual Deus se submeteu numa forma ainda mais terrível que a do vírus: a flagelação, a crucifixão, a solidão do abandono, da zombaria e da ingratidão. Ele não buscou essa pena por Si mesmo e os Evangelhos nos contam como Jesus evitou tantas vezes ser preso e pediu ao Pai, na última noite, que afastasse d’Ele, se possível, este cálice de dor. Mas, respeitando a liberdade humana que chegou nesse caso à mais abjeta perversidade, Ele aceitou-o com obediência e confiança, transformando-o, assim, na nossa redenção. Por outro lado, a realidade da Páscoa é a única resposta plena e definitiva ao problema da dor humana; só o amor e a esperança fazem o sofrimento suportável. É porque o Senhor provou e venceu a morte que esta já não significa para nós o fim e o vazio, mas a esperança firme de que, no fim de tudo, o Bem, a Beleza, a Verdade, a Justiça e o Amor terão a última palavra.    

Na Páscoa de 2020, a fé não só não impediu mas recomendou que os fieis obedecessem às medidas de saúde pública e permanecessem em casa, sem participar das cerimônias públicas da Semana Santa, assistindo-as às distância pelos meios de comunicação. Falta de crença em Deus? Ao contrário, crença sólida de que Deus nos deu inteligência para agir assim e criatividade para tirar o melhor dessa situação. Jornais internacionais estimam que onze milhões de pessoas em todo o mundo assistiram à bênção do Papa pela televisão nesses tempos difíceis. Atividades religiosas têm tido recordes de audiência na internet. Isso não paralisa os cristãos, no entanto, no seu isolamento. Entidades e pessoas religiosas têm se desdobrado no trabalho de frente contra a pandemia, junto com seus colegas de outras confissões ou mesmo ateus: ateus que, no entanto, talvez sem saber explicar, guardam um resquício de fé e creem, de alguma forma, que a vida humana é algo mais do que um simples acaso da matéria…

Este resquício de fé tem que estar presente porque a razão humana só pode responder às perguntas práticas: o que é o vírus? Como evitá-lo e combatê-lo? Quais as medidas públicas e médicas mais prudentes e eficientes? O que se pode fazer, política e economicamente, para debelar as consequências graves da epidemia nesses campos? É a fé que pode responder às perguntas filosóficas e teológicas da pandemia. Por quê, a rigor, tanto esforço em salvar vidas? Todos vamos morrer um dia, que diferença faz se hoje ou em alguns anos? Que sentido faz, nesse momento, em lutar pela sobrevivência dos velhos? Há tantas teorias pseudo científicas que afirmam que a superpopulação do mundo é uma ameaça ao futuro da humanidade, não seria, portanto, extremamente lógico deixar a pandemia correr o seu caminho e eliminar rapidamente uma grande parte da população, especialmente aqueles que já são mesmo os mais fracos e velhos? Por que todo esse sacrifício, inclusive de vidas jovens e valiosas à sociedade, como a dos médicos? E como reagir ao medo, à angústia e ao isolamento? Como não permitir que a epidemia determine completamente a nossa vida? Como medir até que ponto o cuidado pelo corpo passa a ser um exagero prejudicial à saúde da alma? Onde buscar apoio e ajuda espirituais? Que atitude ter com relação à assistência aos mais pobres e indefesos? O que Deus quer nos dizer com esses acontecimentos?

Com todo o seu imenso peso negativo sobre a nossa sociedade, a epidemia mostrou-nos nesses dias muito concretamente a beleza sem par da profunda solidariedade humana. Onde fé e razão cooperam uma com a outra, as pessoas experimentam possibilidades humanas maravilhosas, mesmo em meio a tremendas dificuldades. Quantos testemunhos temos visto e ouvido de vidas e corações que foram tocados, de uma maneira ou de outra, pela necessidade do sacrifício e da caridade.

Nesse caminho, ninguém melhor do que o Santo Padre para ajudar-nos. Recordemos as suas palavras na Vigília da Páscoa: “Terminado o sábado, as mulheres foram ao sepulcro. Como nós, elas tinham nos olhos o drama do sofrimento. Viram a morte e tinham a morte no coração. À amargura, juntou-se o medo: acabariam, também elas, como o Mestre? E depois os receios pelo futuro, carecido todo ele de ser reconstruído. Para elas, era a hora mais escura, como o é hoje para nós. À medida que o tempo passa e os medos crescem, até a esperança mais audaz pode desvanecer. Contudo, nesta situação, as mulheres não se deixam paralisar. Não renunciam ao amor: na escuridão do coração, acendem a misericórdia. Vão ao túmulo e lá ouvem palavras de vida… Depois encontram Jesus, o autor da esperança. Não temais: eis o anúncio de esperança para nós, hoje. Tais são as palavras que Deus nos repete na noite que estamos atravessando. É uma esperança nova, viva, a que vem de Deus. Não é mero otimismo, não é uma palmada nas costas nem um encorajamento de circunstância. A esperança de Jesus põe no coração a certeza de que Deus sabe transformar tudo em bem. Podemos e devemos esperar, porque Deus é fiel. Não nos deixou sozinhos, visitou-nos: veio a cada uma das nossas situações, no sofrimento, na angústia, na morte. E, seja qual for a tristeza que habite em nós, sentiremos o dever de esperar, porque com Deus a cruz deságua na ressurreição, porque Ele está conosco na escuridão das nossas noites e nada poderá jamais roubar-nos o Amor que nutre por nós.”

Decisões essenciais

Ir. Martina Braga OSB[1]

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            O tempo litúrgico do Natal, que celebramos durante duas ou três semanas, até a festa do Batismo do Senhor, nos faz reviver mais de perto o início da vida de Jesus aqui na terra. Ano após ano, relembramos a anunciação, a visita à prima Isabel, o anjo que fala com José em sonhos, o estábulo em Belém, os magos do Oriente, a fuga ao Egito… As leituras do Antigo e do Novo Testamento falam de profecias e histórias que conhecemos desde crianças. Sabemos com exatidão o que vai acontecer. Nossa Senhora vai dizer o seu sim, São José vai seguir as instruções do anjo, os pastores vão visitar o Menino recém-nascido, os magos vão trazer ouro, incenso e mirra, e assim por diante.    

            Esse rememorar de narrações já conhecidas tem o propósito fundamental de nos ajudar a meditar ainda mais profundamente o mistério de Deus feito carne, a fim de amá-Lo mais e melhor. E, no entanto, mesmo celebrando essas festas com devoção e fé, corremos o perigo de tomarmos esses fatos como óbvios e inevitáveis. É como se Maria e José, Isabel, os pastores, Herodes e os magos fizessem parte de um teatro, com papéis determinados, assim como nós pomos as figuras do presépio, cada uma no seu lugar… Tantas vezes nos esquecemos de que essas figuras representam pessoas dotadas de liberdade e de razão, que poderiam, se quisessem, ter escolhido caminhos diferentes.

            Deixemos correr a nossa fantasia por um momento, com a reverência que o assunto exige mas com o realismo e a confiança de filhos de Deus. Imaginemos que Nossa Senhora, ao escutar o anjo, preferisse responder algo como: ‘eu preciso de um tempo para pensar…’ Ou: ‘não, isso é grande demais para mim…’ Ou ainda: ‘quero saber dos detalhes, como vai ser, o que vai acontecer, o que eu vou ter que fazer…?’. Embora tenha sido concebida sem o pecado original, Maria conservava inteiramente a sua liberdade e poderia ter duvidado, rejeitado ou desconsiderado a vontade de Deus… O que teria sido então de nós, como se pergunta São Bernardo?

            Consideremos José. Imaginemos que, ao ouvir a explicação do anjo, ele hesitasse e, em lugar de tomar Maria como sua esposa, decidisse que era menos arriscado esperar até a criança nascer… Ou que ele se revoltasse contra a ordem de levar a família até Belém e acabasse preso pelos romanos… Ou que ele não acreditasse na ameaça de Herodes e achasse melhor não fugir para o Egito…

            Pensemos nos pastores, exaustos do trabalho, buscando um merecido repouso na noite fria. Não seria de espantar que, depois de ver o coro dos anjos, acabassem voltando a dormir. E quem poderia acusar os magos, se eles desistissem de procurar pela estrela e ficassem em Jerusalém, confusos e desapontados? Ou o velho Simeão, se ele tivesse perdido a esperança de ainda ver o Messias em vida…?

            Essas conjecturas nos parecem absurdas. Sabemos que não foi assim! E, no entanto, isso tudo poderia bem ter ocorrido… Todos estes personagens históricos são seres humanos em tudo iguais a nós, com suas dificuldades, limitações, fraquezas e – com exceção de Nossa Senhora – com seus pecados. Deus, na Sua infinita doçura e bondade, quase com humor, quis pedir e depender da virtude dessas pessoas para realizar o Seu plano…

            O que determina o gigantesco valor desses personagens da História Sagrada não é, portanto, como muitas vezes pensamos, uma espécie de inércia pueril frente à arbitrariedade divina, como se eles obedecessem por ingenuidade. Não, muito pelo contrário, cada um deles foi chamado e convidado individualmente por Deus para cumprir o seu papel na salvação da humanidade. A santidade deles consiste exatamente em ter aceitado, livre e conscientemente, apesar de todas as suas falhas e dúvidas, esta confiança de Deus…

            No começo de cada novo ano a mesma questão se apresenta de certa forma à consciência de cada um de nós. O que fazer da minha vida, dentro das circunstâncias que me cercam? Deus nunca está ausente. Ainda hoje Ele nos chama, pessoalmente, a ser aquilo que Ele desejou para nós. A segui-Lo, mesmo que obscura e humildemente como Maria, José e os pastores. A dizer o nosso fiat a Sua vontade, mesmo quando ela discorda da nossa. A confiar, em última instância, na sua Palavra e no Seu Amor.   Essa é a grande decisão das nossas vidas… Essa é a resolução que pode mudar a História, a nossa e a dos outros. Santo Agostinho diz que tudo o que é bom, belo e justo é construído justamente sobre a nossa escolha pessoal de amar a Deus até o ponto, se necessário, do esquecimento de nós mesmos. Ao contrário, ele afirma, o mal é trazido ao mundo pelo amor-próprio egoísta, pelo nosso orgulho, que chega ao absurdo do esquecimento de Deus.    

            Esses termos nos parecem talvez muito duros. Santo Agostinho era um pecador como nós, sabia bem o quão difícil é o mundo e certamente não condenava o amor saudável de si mesmo, reflexo do Amor de Deus por nós e condição do nosso amor ao próximo. O que ele quer dizer então? Simplesmente que o amor verdadeiro implica numa entrega plena, madura de si mesmo. E que só esse amor pode construir o bem e a felicidade. ‘Ama e faz o que queres’, escrevia ele ainda, porque no amor verdadeiro – na caridade que vem de Deus e que se reflete no próximo – já estão contidas todas as virtudes.

            São Paulo também nos adverte com firmeza: sem esse amor, sem essa caridade, a rigor nada do que fazemos tem valor. É esse amor que move os santos. Não um sentimento volúvel, apoiado nos gostos e temperamentos, irracional, hoje entusiasmado, amanhã deprimido. Mas sim uma disposição livre da vontade, meditada, firme, perseverante. Um amor que é capaz de dar-se mesmo aos inimigos e de sobreviver às mais duras decepções. Um amor que é o retrato do Amor que Jesus teve por nós.

            Voltemos ao presépio. A resposta de Maria ao anjo foi perfeitamente consciente, como nos diz o Papa Bento XVI no seu livro sobre a infância do Senhor. Maria se surpreende, cogita e então aceita, com a plena concordância da sua razão e da sua vontade. José tampouco age irracionalmente. A todo momento se faz necessário que ele use o seu discernimento, desde a sua reação ante a noiva que espera um filho até achar lugar em Belém quando as estalagens estão cheias, circundar e dar o nome ao Filho de Deus, estabelecer-se na Galileia e não na Judeia ao regressar do Egito, e assim por diante. O mesmo se pode dizer dos pastores, magos e outros personagens. Buscam, escutam, meditam, agem. São inteiramente humanos, também nas suas perplexidades, medos e fraquezas.

            O que os distingue de nós, talvez, é a prontidão humilde da sua resposta. Quando percebem a vontade de Deus, mesmo que não a acabem de compreender perfeitamente, eles não hesitam. Vencem as suas dúvidas e receios e têm a coragem de ir em frente. As virtudes da fé e da esperança exercem aqui um papel fundamental – sem elas, essas pessoas não poderiam caminhar rumo a um futuro desconhecido, certamente exigente e incômodo. Mas, sobretudo, é o amor de Deus que lhes leva a essa prontidão e a essa entrega. Uma vez tudo visto, meditado e considerado, só o amor tem a força de tomar a decisão e dar o passo adiante.

            Conta-se que o grande mártir inglês, São Thomas Morus, recebeu a visita da sua filha mais velha na prisão, enquanto esperava a sua execução. Morus tinha sido chanceler do reino, era pai de família numerosa, homem de primeira importância social e uma das mentes mais brilhantes da Europa do seu tempo. Estava preso por ter-se negado a aceitar a autoproclamação do rei – seu antigo amigo – como cabeça da igreja na Inglaterra. A filha, que o amava muito, tentava convencê-lo de ceder às pressões da política e usava para isso os melhores argumentos intelectuais. Numa cena memorável do grande filme ‘O Homem que não vendeu sua alma’, vemos Morus abraçar a filha dileta com carinho e explicar docemente: ‘Os seus argumentos são finos e inteligentes… mas você não vê? No fundo, isso é uma questão de amor… Eu amo o Senhor Jesus e não posso traí-Lo…’  

            Gustavo Corção, escritor católico, convertido já na meia-idade, descreve assim a sua resposta à fé: ‘Deus nos chama e nos ajuda, mas de repente ficamos numa situação inaudita, porque nos compete responder. Quase se pode dizer que nesse instante incrível há um silêncio de Deus. Todos os santos calam-se… Estamos subitamente sós e livres… E temos de fazer um pequeno ato, uma insignificância, um gesto de amor, uma coisa de nada que tem a capacidade de encher um silêncio de Deus.’

            A história do Natal, nos damos conta, é no fundo uma história de amor… E nós? Qual a nossa reposta? Temos nós o desejo e a paciência de buscar e escutar a voz de Deus que nos fala ao coração? Através dos sacramentos e da oração, sobretudo, mas também dos acontecimentos mas corriqueiros, das pessoas que nos cercam, das boas leituras e dos bons conselhos? E, quando percebemos com clareza o que Deus quer de nós, temos a coragem de responder o nosso fiat, mesmo que isso implique mudar os nossos próprios planos, como Maria e José?

            Muitas vezes o que nos atrapalha neste caminho é a noção errônea de que Deus só fala através de acontecimentos sensacionais… Pode Deus estar falando comigo, um pecador, dois mil anos após o Seu nascimento, em meio a essa vida moderna e frenética, no meu trabalho, família, círculo de amigos? E, contudo, o que pensavam Maria e José…? Como podiam acreditar que Deus falasse com eles, gente pobre e simples, em meio ao trabalho duro e à vida modesta de uma aldeia, perdida nos confins do Império Romano? Ou os Magos? Como acharam tempo de ouvir a voz de Deus em terras tão distantes, nos seus palácios, em meio as suas riquezas e aos seus estudos? Ou os pastores, cansados e preocupados com as suas ovelhas?  

            Pensamos outras vezes que a vontade de Deus tem necessariamente que se mostrar inteiramente, nalgum plano completo e acabado. E, de novo… tinham Maria, José, os pastores e os magos alguma ideia do que iria acontecer? Quando o velho Simeão prediz o sofrimento de Maria, ela certamente se espanta… E José, que não pôde nem estar no Calvário, junto à Cruz do Filho que ele tinha criado?

            Meditemos nas nossas resoluções para o novo ano. É pouco provável que Deus nos vá pedir, nesse ano que começa, feitos fantásticos ou grande aventuras piedosas. O mais certo é que Ele vá pedir o que já pede: a paciência e fidelidade do dia-a-dia.   Isso soa banal, sem graça, sem brilho. E, no entanto, é maravilhosamente heroico, belo, cheio de alegria e de amor… São Josemaria Escrivá costumava dizer que o segredo da vida é transformar o extraordinário em ordinário, e o ordinário em extraordinário.

            É isso exatamente o que Maria e José fizeram. Nada pode haver mais desconfortável do que um estábulo, nada mais corriqueiro do que uma mulher jovem que acalenta o filho recém-nascido, nada mais comum do que rudes pastores que andam no meio da noite. Para eles, que viveram essas cenas, aquilo tudo talvez se apresentasse como um anticlímax… O Messias esperado há séculos, o Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, nascer assim…? Essa criança simples, ainda mais pobre do que as outras crianças, pode ser o Filho de Deus…? A fé que nos ensinam os personagens do presépio é robusta e sólida. Eles permanecem firmes, cumprem com humildade e amor o seu papel. Que é pedido de Maria, a grande Mãe de Deus? Simplesmente que cuide do seu Filho, não mais do que isso… E isso já é tudo.       

            O teólogo inglês, Cardeal John Henry Newman, canonizado há pouco pelo Papa Francisco – junto com a nossa querida Irmã Dulce – falava sobre essa simplicidade de alma que nos leva a ver as coisas de Deus nas mais banais realidades humanas. Sendo já um homem maduro e de enorme fama intelectual, ele se converteu ao catolicismo e viveu o resto dos seus dias como modesto sacerdote católico – nunca foi bispo e o título honorário de cardeal ele o recebeu já na avançada velhice. Quando lhe perguntavam como podia se contentar com tão pouco e distinguir o que Deus queria da sua vida, ele respondia: ‘Eu não peço ao Senhor que me mostre todo o caminho, mas apenas o próximo passo. O panorama completo só Ele vê.” Newman morreu nessa mesma obscura humildade e, no entanto, nenhuma figura foi mais importante do que a dele para a renovação do catolicismo inglês e norte-americano nos últimos dois séculos.

            É geralmente assim que Deus nos mostra a Sua vontade: Ele indica apenas o próximo passo. Se os nossos dias deixarem de ser um amontoado febril de atividades para se transformarem em chances únicas de fazer o que Deus quer, então mesmo as coisas mais pequenas se nos apresentarão como uma maravilhosa façanha de amor e alegria… Não podemos escapar das dificuldades, mas podemos, com a serenidade e a força que encontramos na oração, enfrentá-las como Maria e José o fizeram.

            O que nos cabe, o que nos é possível, é dar o próximo passo, aqui e agora, confiando nos planos de Deus. Isso é o essencial. Todo o resto é relativo, vem por acréscimo. Por um paradoxo curioso determinado por Deus mesmo, as grandes coisas começam sempre pequenas. É o fermento da massa, como na parábola. Nenhum plano, por melhor que seja, se realiza sem o cuidado dos pequenos detalhes, pacientemente, um após o outro. Não é à toa que projetos realmente benéficos e bem-sucedidos, como os Alcoólatras Anônimos, de profunda orientação cristã, se baseiam num motto como ‘só por hoje’. Não é à toa que Santa Teresa de Calcutá, quando lhe perguntavam como conseguia ajudar a tanta gente, respondia: ‘Eu não consigo… Eu só consigo ajudar a esta pessoa que está agora na minha frente.’ 

            Se o novo ano trará – como sempre se deseja – sucesso, realizações e saúde, não o sabemos. Não sabemos nem se estaremos aqui para ver o seu fim. Tudo está nas mãos de Deus. Se tivermos, porém, feito o nosso melhor para responder, com alegria e amor, ao que o Senhor pede de nós – desde uma palavra boa, uma atitude humilde, uma boa-vontade de perdoar e ouvir até a coragem de rejeitarmos o pecado e de pedirmos perdão – então o ano terá sido ricamente proveitoso. E, em lugar do gosto amargo das oportunidades perdidas e do amor desperdiçado, sentiremos a alegria infinita que arde no coração de quem, humildemente, como Maria e José, dizem sim a Deus…

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[1] Monja beneditina na Abadia de Santa Walburga, Alemanha; doutora em História da Igreja contemporânea pela Universidade de Navarra, Espanha; professora de História e Doutrina Social da Igreja; autora de ‘Lições de Gustavo Corção’, Quadrante, SP.

A Amazônia e o Natal

Ir. Martina Braga OSB [1]


            Durante alguns anos da minha juventude, vivi com a minha família numa diocese extremamente liberal no Brasil. Algumas das coisas que vi acontecer na vida litúrgica da minha paróquia são hoje difíceis de relatar, pelo simples motivo de que os meus ouvintes não acreditam no que eu digo! Já fiz a experiência várias vezes. A maioria das pessoas acha que eu estou exagerando ou inventando um absurdo.

            Para evitar essa reação, eu me atenho geralmente a um episódio único, muito concreto, que ficou marcado na minha memória como uma profunda lição de espiritualidade. A história ocorreu numa missa normal de domingo quando eu devia ter uns catorze anos. No começo da celebração o pároco anunciou que essa seria uma ‘missa dos pobres’ e que quem não se fizesse ‘pobre com os pobres’ se sentiria fora de lugar. Como meus bons pais sempre me tinham ensinado a estar à vontade em qualquer ambiente – para eles, isso queria dizer encontrar as pessoas na sua humanidade, fosse qual fosse a sua posição social – eu achei que não precisava me preocupar.

            Ao meu lado, no banco da igreja, estava a Dona Maria. Ela era um marco histórico da paróquia, uma senhora velhinha cuja idade nem ela mesma conhecia. A Dona Maria não sabia nem ler nem escrever, morava numa casa com chão de terra e, viúva, tinha criado sozinha os oito netos que a filha e o genro, mortos num acidente, tinham-lhe deixado. Com meio metro de altura, uma pele maravilhosa, cor de ébano, uma ferida varicosa incurável na perna – o que não lhe impedia de caminhar os quatro quilômetros até a Missa – e um coração de ouro puro, a Dona Maria possuía uma sabedoria dessas que Deus dá aos ‘pequenos e humildes’, como disse Nosso Senhor.

            Depois de uma liturgia profundamente ideologizada, que nem eu nem a Dona Maria conseguimos compreender bem, chegou a hora da comunhão. O pároco distribuiu as hóstias consagradas em vasilhas usadas e encardidas – algumas quebradas – de plástico de cozinha. A Dona Maria e eu comungamos obedientemente. No fim da Missa, o padre fez um longo discurso numa terminologia que só uns poucos iniciados entenderam, e explicou que as vasilhas de plástico queriam dizer “ser pobre como os pobres”.

            Nesse momento eu vi lágrimas de prata escorrendo pelo rosto negro da minha velha amiga. Receosa de que alguma coisa tivesse acontecido, eu segurei a sua mão e perguntei-lhe o que tinha. Depois de alguns minutos de silêncio, as lágrimas prateadas rolando como cascata, ela me segredou baixinho:

            ‘Você sabe, menina, eu sempre fui muito pobre. Mas nunca fui suja nem impertinente. Quando o pároco me visita, eu sirvo o café dele na minha única xícara de porcelana, que a minha avó ganhou da sinhá, quando ainda era escrava. E eu ponho na mesa a toalha mais limpa. O pároco aceita. Mas olha como ele serve Nosso Senhor…’

            Eu nunca esqueci essas palavras. A Dona Maria faleceu não muito depois. Eu me tornei professora, fiz faculdade, mestrado e doutorado. E, no entanto, a lição que a Dona Maria me deu, com a sua sólida sabedoria, me valeu muitos dos meus livros. Eu sempre imagino que ela sorri lá do céu. 

            Acompanhando as notícias do recente Sínodo da Amazônia, as palavras e as lágrimas da Dona Maria pareceram martelar a minha consciência. Em um certo momento do Sínodo, o famoso bispo austríaco, Erwin Kräutler, missionário há muitos anos na Amazônia, declarou solene e peremptoriamente – ah, lembranças do meu pároco… – que os índios não podem entender, e muito menos viver, o celibato sacerdotal. Conclui-se, portanto, que é impossível para eles ser ou conviver com sacerdotes segundo as normas sacramentais da Igreja. Tem que haver uma nova forma de ‘liderança comunitária’, feita por homens e mulheres casados, que tomem o lugar do padre.

            Algumas horas depois, levantou-se na aula sinodal um sacerdote peruano. Bastava olhar para ele – como basta olhar para a esmagadora maioria dos padres peruanos, mexicanos, equatorianos ou paraguaios – para ver que se tratava de um índio no duro e não de alguém, como o bispo austríaco, ‘falando pelos índios’.

            O sacerdote tomou a palavra, com seriedade e discrição – ah, a minha Dona Maria… – e fez observações nesse sentido: ‘Eu sou cem por cento índio. Vivo numa cultura mestiça, mas não há em mim nenhum outro sangue que não seja o do índio da região da Amazônia peruana. E, no entanto, eu compreendo, amo e me esforço por viver o celibato. Não é fácil… mas não porque eu sou índio. Não é fácil tampouco para o Senhor Bispo, nem para os europeus missionários e nem para nenhum sacerdote do mundo, seja ele de onde for. O celibato só pode ser vivido com a graça de Deus. Eu creio que o problema aqui não é que os meus índios da Amazônia não possam entender o celibato, mas sim que os missionários europeus parecem não querer viver o celibato…’

            O meu coração exultou como se eu ainda tivesse os meus quinze anos! Acho que se eu estivesse presente na aula sinodal, eu tinha beijado a mão do padre, assim como naquela época remota eu beijei a mão da Dona Maria. A verdade tem esse efeito. Ela liberta, alegra, traz de novo paz e sentido ao mundo. E ela é mais discreta do que os gritos ideológicos.

            Na sua visita ao Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em 2013, o Papa Francisco conclamou o povo católico a ir às periferias, a buscar aqueles que estão isolados e necessitados. No entanto, ele sublinhou, o objetivo não é ficar na periferia. O objetivo é trazer as pessoas que sofrem de volta à sua dignidade de filhos de Deus e ao convívio social pleno.

            A questão que o Santo Padre sempre enfatiza é que é necessário um contato direto e pessoal com os outros. Ajudar implica em primeiro lugar interessar-se, conhecer, abrir-se à pessoa do outro, mesmo aprender com ele. Só então é possível amar de verdade, e só amando é possível ajudar realmente. A famosa admoestação do Papa, de que o pastor deve cheirar a ovelha, é profundamente autêntica. A gente reconhece a pessoa dedicada a sua vocação pelos traços que ela passa a trazer em si mesma, vindos do seu contato próximo com aquilo que ela faz.

            No entanto, o Papa diz que o pastor deve cheirar a ovelha, não virar ovelha. O pastor ama, conhece, vive com as ovelhas. Mas permanece pastor. Se não for assim, ele já não serve às ovelhas. Um médico que se interesse tanto pela doença que já não quer curá-la não é mais médico. Um cidadão que já não se importa com a corrupção na sua sociedade já não é mais bom cidadão. Um missionário que prega uma ideologia e não a fé em Jesus Cristo e na Sua Igreja não é mais missionário.

            Trata-se então de impor a fé aos outros? O nosso dever é sair pelo mundo corrigindo as pessoas que encontramos, como se nós fôssemos perfeitos? Obviamente que não. A liberdade é um presente de Deus sem o qual, a rigor, ninguém pode chegar até Ele. Nós não somos absolutamente ninguém para julgar, impor ou exigir. A nossa única missão, imitando o Cristo, é dar-nos, deixando que a luz de Deus passe através de nós, sobretudo pelo nosso exemplo. Não se trata de afirmar-nos a nós mesmos, como nos lembrava o Papa Bento XVI no discurso inaugural do seu pontificado, mas de submeter-nos humildemente à Verdade de Deus, superior a nós. 

            O missionário não é em si mesmo, portanto, um reformador social, um político, um antropólogo interessado em culturas diversas. O missionário é aquele que se aproxima dos outros para ajudá-los a descobrir a Beleza, a Justiça, a Verdade e o Consolo de Deus. Nele abunda o Amor de Deus de tal forma que ele irradia esse Amor aos outros. E isso se dá em todo lugar, desde a Amazônia até a roda de amigos.

            O desrespeito à liberdade individual é tomado hoje como argumento definitivo da condenação do trabalho missionário E, no entanto, não é este mesmo desrespeito que vemos acontecer, às vezes brutalmente, na nossa assim chamada tolerante sociedade moderna? Uma mentalidade reducionista que despreza aqueles que não se comportam segundo a moda, que não vivem de acordo com os valores da propaganda, que não seguem à risca o modo de pensar, de vestir, de falar, de planejar a vida, que a sociedade secularizada impõe? A ditadura do relativismo, como dizia ainda o Papa Bento XVI, determina uma tirania social. Coitada da jovem que, hoje em dia, é um pouco mais gordo, tem um maior número de filhos, vai à Igreja, acha que a honestidade é mais importante do que assegurar o emprego no governo ou não segue com exatidão a filosofia de vida ditada pela carreira na firma multinacional…      

            A mentalidade secularizada só aceita o trabalho missionário se ele for entendido como promoção social – coisa que é, na verdade, consequência e não essência dele. Essa mentalidade atribui às culturas um valor absoluto: os costumes externos tomam o lugar da busca individual da verdade. Evangelizar o índio se torna, portanto, um desrespeito ao índio. Obviamente isso ocorre porque aqui ele é visto em primeiro lugar como índio e depois como ser humano, dotado de liberdade e consciência. A fé cristã, ao contrário, vê nele em primeiro lugar um homem como todos os homens, que por acaso é índio. Podia ser europeu, africano ou asiático. É homem chamado por Deus para a vida eterna, como todos os outros.

            O relativismo no fundo contradiz a si mesmo. Se tudo é relativo, tampouco faz muito sentido o trabalho humanitário. Por que deveríamos ajudar os necessitados? Há culturas antiquíssimas nas quais o homem trata as suas várias mulheres como animais. É a cultura desses povos, deve-se então respeitá-la. Há sociedades nas quais a pedofilia e o tráfico sexual são prática comum. Nada se pode fazer. Há países, como o Brasil, onde a corrupção e a desonestidade se tornaram o modus vivendi de grande parte das pessoas. Inútil rebelar-se ou acusar o mal. Há meios urbanos modernos nos quais a adição à droga e outras práticas profundamente degradantes são o dia-a-dia dos jovens. É deixá-los morrer e serem mortos. Não há mais bem nem mal. Nesse sentido, o sistema judiciário acabaria sendo abolido. Que sentido faz julgar um crime? Tudo é uma questão relativa, não há mais criminoso nem vítima.

            A história da Igreja nos dá muitos exemplos de trabalho missionário que se confundiu com esforços de colonização política e material. É óbvio que isso é um erro – e os santos de todas as épocas assim o afirmavam. O missionário não pode ser um colonizador. Não pode usar a situação do outro para fomentar os seus próprios interesses materiais. Não pode impor. Mas tampouco pode mentir. E também não pode usar a situação do outro para fomentar os seus próprios interesses ideológicos.

            Geralmente são justamente aqueles que gritam ideologicamente em favor do respeito à cultura alheia os primeiros a contrariar o seu próprio preceito. Assim como o meu pároco que tomava café na porcelana do pobre mas servia a Comunhão no plástico sujo da casa do rico. Ele não conhecia o pobre. Pobre era a minha Dona Maria, limpa, genuína, verdadeira e piedosa.

            O bispo europeu diz que os índios não são capazes de entender o celibato. Por quê? Os índios não são pessoas humanas assim como os europeus? Se eles entendem, por que os índios não podem entender? Isso se parece à ofensa feita a minha Dona Maria, de dizer que, porque ela é pobre, é suja. O índio e o pobre estão aqui sendo manipulados.

            Os primeiros cristãos entendiam com muita clareza que o determinante não é a condição social, a cultura, a língua ou a origem, mas sim a fé em Cristo. Uma conversão implica necessariamente numa mudança na alma e no coração. E essa mudança individual influencia inexoravelmente a conversão da sociedade. Um cristão verdadeiro espalha ao redor de si justiça, paz, solidariedade, respeito, fidelidade, coragem, honestidade, simplesmente por ser quem é. Foi assim que os cristãos converteram o Império Romano. Sendo mártires, ou seja, testemunhas.

            Onde podemos buscar o melhor exemplo de trabalho missionário? Nos santos? Certamente. Houve e há grandes missionários. Mas os santos, sendo humanos, têm sempre falhas. O exemplo perfeito? Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele, sendo Deus, fez-se homem, em tudo igual a nós. Desceu da sua divindade e nasceu num estábulo cheirando a estrume. Cresceu, trabalhou, viveu numa família, morou numa região dominada pela violência, sofreu privações, cansou-se, chorou, sangrou e morreu como nós. Foi pobre com os pobres, homem com os homens, judeu com os judeus.

            E para quê? Para nos fazer apenas companhia na nossa miséria? Um miserável a mais? Não. Ele fez-se um de nós em tudo, mas uma coisa ele não compartilhou conosco. O nosso pecado. Para redimir-nos da nossa própria ingratidão e infidelidade contínua, Ele curou, ensinou, perdoou. E desceu então ao mais profundo da natureza humana, à dor, à tortura e à morte, para com a sua ressurreição abrir-nos o caminho da vida eterna. Ele se fez igual a nós para resgatar-nos, que fazer-nos iguais a Ele. Ele veio à periferia, conheceu-a, viveu nela, para tirar-nos dela.

            O Natal, agora próximo, lembra-nos esse fato essencial da História humana. Que a contemplação da Encarnação do Senhor nos confirme na nossa vocação de missionários, seja ela onde e como for, numa doação autêntica até o fim das nossas vidas.

            Para aqueles que andavam nas trevas da morte, uma Luz brilhou… Um Filho nos foi dado… Mesmo que os nossos pecados sejam vermelhos como a púrpura, Ele os fará brancos como a neve… Vem, Senhor Jesus!

[1] Monja beneditina na Abadia de Santa Walburga, Alemanha; doutora em História da Igreja contemporânea pela Universidade de Navarra, Espanha; professora de História e Doutrina Social da Igreja; autora de ‘Lições de Gustavo Corção’, Quadrante, SP.

Advento: Tempo de Esperança

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu… tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou…tempo de chorar e tempo de rir… tempo de procurar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de jogar fora… tempo de calar e tempo de falar…Tempo de amar e tempo de odiar… tempo de guerra e tempo de paz.” O livro do Eclesiastes  nos lembra que para tudo existe um tempo. Entramos no tempo do Advento. Tempo de espera, de renovar em nossos corações a esperança em Jesus que virá. Este é o grande sinal do primeiro tempo do Ano Litúrgico, o tempo da esperança, do cumprimento da promessa e da paz. 

Esse tempo de espera deve ser para nós, cristãos, uma preparação para vivenciarmos a alegria prometida. A expectativa do Natal que se aproxima, deve ser, também, um tempo de reflexão das nossas atitudes. O Advento nos dá a oportunidade do arrependimento de nossas faltas e a busca de um tempo novo em nossas vidas: Tempo de amar, de servir, de perdoar, de promover a paz

Amar a Igreja? Ainda é possível?

Ir. Martina Braga OSB[1]


[1] Monja beneditina na Abadia de Santa Walburga, Alemanha; doutora em História da Igreja contemporânea pela Universidade de Navarra, Espanha; professora de História e Doutrina Social da Igreja; autora de ‘Lições de Gustavo Corção’, Quadrante, SP.

            Há um episódio, encontrado aqui e ali em fontes muito diversas, que certamente tem um quê de fundo histórico. É uma história por demais realista para ter sido inventada. Em qualquer caso, tendo acontecido ou não, a narração traz em si uma verdade muito profunda que, me parece, merece ser lembrada e repetida.  

            No século XV, em plenos tempos da Renascença, moravam em Paris, França, um cardeal e um judeu. Eles tinha estudado juntos, conheciam-se muito bem e eram excelentes amigos. Sendo ambos pessoas piedosas e tendo grande confiança um no outro, era natural que nas suas longas conversas o assunto religioso sempre viesse à tona.

            O judeu procurava convencer o cardeal de que Jesus não podia ser o Messias esperado. Os cristãos não se parecem nada com o povo santo da nova e gloriosa Jerusalém, ele argumentava. O cardeal, por sua parte, retorquia ao amigo: ‘Vive o cristianismo profundamente, descobre a Jesus pessoalmente, e tu verás que Ele é quem que tu procuras…’ Os dois sorriam, a discussão parava aí e a estima mútua permanecia inabalada.

            Até um dia em que o judeu anunciou ao amigo, com um sorriso maroto: ‘Negócios importantes me chamam em Roma por três meses. Parto amanhã. Quem sabe agora não me converto? Se tu rezares especialmente ao teu Jesus…’

            Para sua surpresa, o cardeal alarmou-se. ‘Roma? Precisas mesmo ir lá? Por que não resolves teus assuntos por cartas?’

            ‘Ora, ora, e eu pensei que a notícia te deixaria exultante! Lá, ao pé do túmulo do Apóstolo Pedro, não é a oportunidade de ouro que tu esperavas para que o meu espírito abraçasse a tua fé?’

            O cardeal calou-se e o seu rosto sério mostrava uma grande preocupação. Ele sabia bem que a Roma da Renascença era o pior exemplo que o seu amigo poderia ter da religião cristã. Nepotismo, orgulho, avareza, politicagem, luxúria… nada disso faltava no clero romano, e nem mesmo no palácio pontifício. O bom judeu era um homem de vida honrada e honesta, sua conversão era agora um caso perdido. Que ironia… o amigo iria a Roma e ela seria causa do seu afastamento definitivo da Igreja.

            O bom cardeal suspirou. ‘Que o Deus único e todo-poderoso te guarde, meu velho companheiro. O único que eu te peço é que perdoes a fraqueza dos cristãos… e não meças por eles a divindade do Mestre…’

            Os três meses se passaram. O cardeal rezava todos os dias pelo bom judeu mas a certeza de que este regressaria indignado e definitivamente fechado a qualquer centelha de fé cristã deixavam-no acabrunhado e triste.

            Numa tarde de inverno, sentindo-se velho e cansado, o bom sacerdote rezava o seu rosário junto ao fogo já meio apagado da lareira e pedia à Virgem Mãe que olhasse pela Igreja em tão doloroso estado. Nisso bateram à porta e, antes que ele pudesse levantar-se, lá entrou o seu velho amigo judeu.   

            Vinha bronzeado, sua espessa barba tinha sido aparada, seus olhos brilhavam com típicas inteligência e bondade. E, no entanto, algo nele parecia novo, diferente… O cardeal levantou-se e estendeu as mãos. Seu coração se preparara para escutar as palavras amargas que o outro certamente lhe diria acerca da sua viagem. Qual não foi a sua imensa surpresa quando o judeu se ajoelhou diante dele e disse, com voz firme mas comovida:

            ‘Eu peço que tu me instruas nas verdades da fé cristã e me batizes. Logo que possível.’

            Seria uma brincadeira de mau gosto? Não, isso não combinava com o amigo, homem piedoso e sério… O cardeal perguntou, confuso:

            ‘O que houve? O que tu estás dizendo? Ser batizado? Mas então Roma…’

            ‘Roma é uma das cidades mais corruptas que eu já visitei. O clero é lastimável e a política eclesiástica um escândalo. Luxo e miséria convivem lado a lado, rodeados de intrigas, interesses escusos, e carreirismo. O celibato é praticamente desconhecido. O orgulho insuportável.”

            ‘E no entanto…? Tu pedes ainda o batismo? Não entendo…’

            ‘Meu bom amigo, eu tenho uma longa experiência e uma intuição infalível para achar objetos de valor. Eu posso detectar a autenticidade de uma pedra preciosa mesmo que ela esteja coberta de lama ou envolta na poeira dos séculos. Em Roma eu vi essa lama e essa poeira. Mas a pérola estava lá. Em meio à toda aquela corrupção permaneciam inalteráveis a beleza da liturgia, a força dos sacramentos, a autenticidade da palavra de Deus. Mesmo o clero, que perde as almas pelo seu mal exemplo, prega ainda uma verdade que é superior a eles. Se eles seguissem o que eles mesmos dizem, seriam santos. E da boca do Santo Padre, ainda que não das suas ações, saem doutrina e moral íntegras. Mais do que tudo, em meio a toda aquela balbúrdia, eu vi pessoas – sacerdotes, religiosos e leigos – que vivem com sacrifício e modéstia os mandamentos de Jesus. Gente cheia de caridade, de humildade e de fé. Eu descobri a pedra preciosa. Uma igreja que, apesar de todo o pecado dos seus membros, sobrevive mil e quinhentos anos com a sua doutrina perene e é capaz de suscitar pessoas santas em meio ao lamaçal do mundo, só pode ser verdadeira. É Deus que está por trás dela. Eu creio agora no Senhor Jesus.’

            Nós vivemos no século XXI. Temos a graça imensa de presenciar uma longa sucessão de papas santos. Roma não é mais hoje a Roma da Renascença. Os exemplos de vida sacrificada e dedicada a Deus são também inúmeras na nossa Igreja – quantos santos modernos canonizados, alguns dos quais nós vimos ainda nosso meio!

            E, no entanto, também nos nossos tempos há a lama e a poeira. O carreirismo eclesiástico, a falta de firmeza na fé, o mundanismo, o deslumbramento perante a riqueza e a fama, a falta de fidelidade, a superficialidade e a fraqueza de caráter, a corrupção ideológica da doutrina e da moral, tudo isso são problemas que atingem a todos nós, católicos modernos, clérigos, religiosos e leigos. E quando isso chega a pecados gravíssimos como os abusos sexuais e a blasfêmia com relação aos sacramentos, a dor de todo o povo de Deus é imensa e as vítimas, diretas ou indiretas, incontáveis. Deus tenha piedade de nós.

            Nada disso, porém, destrói a pedra preciosa. Ela permanece lá, ainda que coberta de detritos. E é nela que está posta a nossa fé, não nos detritos. E a ela que nós devemos amar, não a sujeira que a envolve. Quando nós dizemos no Credo: eu creio na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, o que dizemos é que cremos nesta pedra preciosa, na esposa mística de Cristo, na sociedade daqueles que, pela sua vida santa, seguem os ensinamentos do Bom Pastor.

            Cremos na palavra de Deus, na reta doutrina, na moral íntegra e pura, na força dos sacramentos, na comunhão dos santos que fazem parte da Igreja, aqui e no céu. Cremos que Deus garante a infalibilidade do Santo Padre em questões de fé. Cremos na união dos bispos com o papa. Cremos no valor da ordenação sacerdotal. Cremos na autenticidade da vida consagrada a Deus. Cremos na santidade das famílias. E isso tudo apesar dos defeitos individuais que todos esses membros – nós entre eles – possam ter.

            Por quê? Em última análise porque cremos em Nosso Senhor Jesus Cristo, fundador e cabeça da Igreja, e na Sua promessa de que as portas do inferno – por mais que tentem – não prevalecerão contra ela. Na Igreja há lama e sujeira deixada pelo pecado, mas só nela descobrimos, por baixo dessa crosta impura, a pedra preciosa, única e verdadeira. Fora dela pode haver, aparentemente, menos poeira. Mas não há nada mais do que bijuteria. A pedra preciosa é o Senhor, Ele mesmo, e as Suas promessas.

            Em tempos de crise, em temos de lamaçal, agarremo-nos com amor à pedra preciosa e não a percamos de vista: a palavra de Deus, os sacramentos, a vida de santidade, a fidelidade às nossas promessas, a obediência ao magistério legítimo da Igreja, o exemplo e a intercessão dos santos, especialmente da Bem-aventurada Virgem Mãe. Ancorados e seguros, podemos lutar contra as tempestades sem que elas nos atinjam. Podemos manter a serenidade e a alegria dos confessores e dos mártires. Podemos saber-nos sempre acompanhados do céu. Podemos ser firmes na esperança, na fé e na caridade. Podemos seguir adiante, seguros de que o mundo passará, mas o Cristo permanece o mesmo na Sua Igreja, ontem, hoje e sempre.  

Pentecostes

“Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” (At 2, 1-4)

Pentecostes é o derramar  do Espírito. É a promessa de Jesus que se cumpre nos Apóstolos. “Entretanto, digo-vos a verdade: convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei. E, quando ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do juízo. Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em mim. Ele o convencerá a respeito da justiça, porque eu me vou para junto do meu Pai e vós já não me vereis; ele o convencerá a respeito do juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado.” (Jo 16, 7-11).

Ainda hoje, o Espírito Santo se manifesta com poder a todo àquele que O busca de  coração. Ele  se deixa encontrar e quando isso acontece, faz morada nessa alma.

   

Quaresma, tempo de reflexão

Quaresma, tempo de silêncio, oração e conversão 

 A Quaresma é um tempo de escuta da Palavra e de reflexão, de busca e de entrega. É um tempo em que Deus nos convida à conversão profunda e verdadeira.

O pecado, que nos afasta de Deus, foi o que levou Jesus a vir até nós e, numa entrega completa de amor, morrer na cruz. Devemos arrancar o pecado da nossa alma para estarmos prontos quando nos encontrarmos face a face com Deus.

Viver a Quaresma é buscar a Santidade. É um tempo em que devemos silenciar para ouvir mais aquilo que em nossa alma clama que precisa de conversão. É importante tomar consciência do pecado e ter o desejo de tirá-lo da alma. É nesse sentido que a Quaresma é um período de penitência.

Se a Quaresma é um tempo privilegiado para a busca da santidade, toda a nossa vida de cristãos deve ser vivida como esforço para adquirir as virtudes e lutar contra o inimigo. Pedro exortava os cristãos: “Sede sóbrios e vigilantes. O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, fortes na fé” (I Pd, 5, 8-9a).

Esse combate é um combate interior. O papa Leão Magno, em uma pregação, disse: “É agora que os nossos corações devem se mover com maior fervor para a perfeição espiritual. (…) Muitos combates acontecem dentro de nós mesmos, os desejos da carne se opõem aos do espírito e os do espírito, aos da carne. (…) Mas aquele que está em nós é mais forte do que aquele que está contra nós”. E, ainda, em outra homilia afirmou: “A quaresma é tempo de limpar e enfeitar a casa por dentro. Convém que vivamos sempre de modo sábio e santo, dirigindo nossa vontade e nossas ações para aquilo que sabemos agradar a Deus”.

Com o tempo da Quaresma, também tem início a Campanha da Fraternidade, cujo objetivo é contribuir para uma sociedade mais fraterna, justa e igualitária. Com o tema “Fraternidade e superação da violência” e o lema “Em Cristo somos todos irmãos” (Mt 23,8), a Campanha visa mostrar a cultura de violência que hoje está presente nos mais diferentes âmbitos da sociedade.

 

 

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus tem sua origem na Sagrada Escritura

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A devoção ao Sagrado Coração, de um modo visível, aparece em dois acontecimentos fortes do Evangelho: no gesto de São João, discípulo amado, encostando a sua cabeça em Jesus durante a Última Ceia (cf. Jo 13,23); e, na cruz, onde o soldado abriu o lado de Jesus com uma lança (cf. Jo 19,34).

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA

A Palavra é um dom. O outro é um dom

Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus “de todo o coração” (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

Quaresma, tempo de Oração

A Quaresma é o tempo propício para um verdadeiro encontro com Deus. O que a Igreja nos pede? Jejum, oração e penitência.

A Quaresma nos leva a uma maior reflexão sobre os passos de Cristo em sua caminhada até a cruz. A Igreja convida a viver em plenitude o mistério da Paixão de Cristo,  isso é um movimento, um querer diário. Essencialmente, o período é um retiro espiritual, são quarenta dias voltado à reflexão, onde todo cristão se recolhe em oração e penitência preparando o espírito para a acolhida do Cristo Vivo.

Após o período de quarenta dias, se inicia oTríduo Pascal, que termina no Domingo de Páscoa.

Cada passo dado durante a Quaresma nos aproxima mais do Cristo vivo no Sacramento da Eucaristia.

O Dízimo do Senhor

“Honra ao Senhor com os teus bens e com a primeira parte de todos os teus ganhos; e se encherão os teus celeiros, e transbordarão de vinho os teus lagares.” (Provérbios 3; 9,10)

A prática do dízimo não é um ato que se faça sem que o coração esteja envolvido. Tudo o que temos vem de Deus, justo será que lhe entreguemos parte dos bens com que Ele próprio nos cumula.

Já no Antigo Testamento observamos o patriarca Abraão, que oferece o dízimo: “Considerai, pois, quão grande é aquele a quem até o patriarca Abraão deu o dízimo dos seus mais ricos espólios. 5Os filhos de Levi, revestidos do sacerdócio, na qualidade de filhos de Abraão, têm por missão receber o dízimo legal do povo, isto é, de seus irmãos”. (Hb 7,4-5) 

Carta Apostólica “Misericordia et misera”

Íntegra da Carta Apostólica “Misericordia et Misera” do Papa Francisco, por ocasião do encerramento do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia.

CARTA APOSTÓLICA MISERICORDIA ET MISERA do Santo Padre FRANCISCO

MISERICÓRDIA E MÍSERA (misericordia et misera) são as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador: “Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia”.[1] Quanta piedade e justiça divina nesta narração! O seu ensinamento, ao mesmo tempo que ilumina a conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, indica o caminho que somos chamados a percorrer no futuro.

A Porta Santa é um gesto da misericórdia de Deus

A Porta Santa é uma porta especial em uma catedral ou em uma basílica,  aberta somente em anos jubilares. Normalmente esse acontecimento se repete a cada 25 anos, intervalo entre os anos santos ordinários. Entretanto ela pode ser aberta durante anos extraordinários como fez em 1983, o então Papa João Paulo II.

Em 8 de dezembro de 2015, Papa Francisco inaugurou o Ano Santo da Misericórdia abrindo a Porta Santa que ficará aberta até 20 de novembro de 2016.

Muitos se perguntam o significado da Porta Santa. ”A Porta Santa é simbólica: ela representa o passo do pecado à redenção, da morte à vida, do não crer à fé. Jesus se descreve como “a Porta”. Precisamos entrar por ele para chegar ao Pai. A porta é a via da salvação”.

Papa Francisco lembra que :“haverá nesta ocasião uma Porta da Misericórdia, e quem passar por ela poderá experimentar o amor de Deus que consola, que perdoa e dá esperança”.

O dia 8 de dezembro escolhido para o início do Ano Jubilar tem duplo significado. Nessa data celebramos a solenidade da Imaculada Conceição. A Virgem Maria é a porta pela qual a Salvação entrou no mundo, além disso,  marca os 50 anos do Concílio Vaticano II.

Passar pela Porta Santa, não é somente cumprir uma preceito. Passando por essa Porta você recebe uma indulgência plenária, ou seja, a “remissão da pena temporal pelos pecados perdoados em confissão”  sempre e quando o ato for acompanhado pela comunhão e pela confissão, e a pessoa fizer um ato de fé, rezar pelas intenções do Papa e realizar um ato de misericórdia.

Carta do Papa Francisco com indicações acerca do Jubileu da Misericórdia

Ao Venerado Irmão
D. Rino Fisichella
Presidente do Pontifício Conselho
para a Promoção da Nova Evangelização

A proximidade do Jubileu Extraordinário da Misericórdia permite-me focar alguns pontos sobre os quais considero importante intervir para consentir que a celebração do Ano Santo seja para todos os crentes um verdadeiro momento de encontro com a misericórdia de Deus. Com efeito,  desejo que o Jubileu seja uma experiência viva da proximidade do Pai, como se quiséssemos sentir pessoalmente a sua ternura, para que a fé de cada crente se revigore e assim o testemunho se torne cada vez mais eficaz.

“Os emigrantes e refugiados interpelam-nos. A resposta do Evangelho da misericórdia”

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO 2016

Queridos irmãos e irmãs!

Na bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia recordei que “há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai” (Misericordiae Vultus, 3). De fato, o amor de Deus quer chegar a todos e cada um, transformando aqueles que acolhem o abraço do Pai noutros tantos braços que se abrem e abraçam para que todo o ser humano saiba que é amado como filho e se sinta “em casa” na única família humana. Deste modo, a ternura paterna de Deus, que se estende solícita sobre todos, mostra-se particularmente sensível às necessidades da ovelha ferida, cansada ou enferma, como faz o pastor com o rebanho. Foi assim que Jesus Cristo nos falou do Pai, dizendo que Ele Se inclina sobre o homem chagado de miséria física ou moral e, quanto mais se agravam as suas condições, tanto mais se revela a eficácia da misericórdia divina.

 “Igreja, família de Deus – A profecia dos relacionamentos”

 

“Igreja, família de Deus – a profecia dos relacionamentos” é o título do meu primeiro livro. Na verdade, é uma coletânea dos escritos que eu fiz ao longo desses 14 anos para a Comunidade Coração Novo e que foram organizados por Luciano Rocha, tendo em vista o fato de que eu já pregava nas igrejas sobre esse tema e levava essas mensagens que eu tinha para a comunidade também com uma visão eclesial para as paróquias e outras comunidades.

 “Aos Pés da Cruz”

O bispo auxiliar, animador dos Diáconos na Arquidiocese, Dom Luiz Henrique, escreveu assim na apresentação do livro “Aos pés da Cruz”, escritos pelos alunos da escola diaconal: “O livro se destaca pela simplicidade, o que é próprio das coisas de Deus. Tem como objetivo ajudar a todos os fiéis no caminho da espiritualidade e da prática sacramental”.

Segundo Luciano, o livro visa dividir com os irmãos de comunidade paroquial um pouco da espiritualidade franciscana que animou a vida de Padre Pio. Num primeiro momento o leitor é convidado, então, a conhecer um pouco da vida de São Pio de Pietrelcina. Foram selecionados alguns textos importantes, inclusive a homilia de João Paulo II na ocasião da canonização de Padre Pio. Depois há meditações diárias, a partir de frases de Padre Pio e da Palavra de Deus. Há orações compostas por ele e orações de cunho franciscano e mariano.

Por fim, foi selecionada, das Fontes Franciscanas o escrito “A Perfeita Alegria”. Este lindo conto místico faz parte de um conjunto de histórias chamadas “Fioretti” (Florzinhas). Trata-se de pequenos relatos sobre a vida de São Francisco de Assis e dos primeiros frades. Eram histórias transmitidas de maneira oral e compiladas muitos anos depois. De modo particular, “A Perfeita Alegria” expressa muito bem a mística franciscana e nos ajuda a entender melhor a espiritualidade que Frei Pio vivia. De acordo com os alunos, esse é um ‘livro de cabeceira’, para ser lido com calma, e se tornar parte das orações diárias.