Samir, Nelson e Dudu

O retiro Identidade, organizado pelo grupo Jovem Aliança, realizado em nossa Paróquia no fim do mês de novembro, recebeu mais de 400 jovens que, sob o slogan “Ou Santos ou Nada”, viveram momentos de muita emoção, em especial com a presença e o testemunho de amigos de Guido Schäffer.

A Pascom conversou com Samir Aros, amigo de Guido desde a adolescência, que falou sobre a simplicidade daquele jovem que encantou tanta gente. Guido já é considerado “Servo de Deus”; seu processo de beatificação recebeu em novembro de 2014 o “Nihil Obstat” (nada consta) do Vaticano, e a Arquidiocese do Rio de Janeiro instalou um tribunal para dar início ao processo, solicitado em maio de 2014.

Pascom – Samir, conta pra gente como você conheceu o Guido?

Samir – Eu conheci o Guido com 10 anos de idade. Estudamos e passamos a nossa infância inteira juntos, surfando, jogando bola, fazendo coisas de adolescentes. Por intermédio da família do Guido e pela Graça de Deus, acabamos indo para a Igreja. Se não fosse pela mãe do Guido, talvez estivéssemos no mundo, um pouco desviados, porque éramos meio “arteiros”. Nós nos conhecemos brigando. Éramos garotos, como eu disse, e estudávamos no Colégio Sagrado Coração de Maria. Éramos de turmas diferentes, mas tínhamos amigos em comum. O Guido era muito brincalhão. Um dia, voltando do colégio, ele ficou fazendo gozação com um amigo nosso que era um pouco mais gordinho, essas coisas de adolescente. Eu fiquei muito chateado com aquilo, porque nunca gostei de colocar apelido nas pessoas, e aí começamos a brigar, sair no tapa mesmo, de rolar no chão. Os amigos nos separaram e, no meio da confusão, ameaçamos um ao outro dizendo que no dia seguinte a briga iria continuar. No dia seguinte, o colégio inteiro sabia da história e, no final da aula, todo mundo estava esperando para ver a briga. Havia muita gente; praticamente fizeram uma arena para ver a gente brigar. Quando saímos, o pessoal começou a nos incentivar à briga. Quando vimos aquela quantidade de gente esperando, resolvemos ir embora. Saímos abraçados e a galera deu a maior vaia. E a partir daquele dia ficamos mais íntimos, ele me chamou para jogar bola e a amizade foi se fortalecendo.

Pascom – Vocês eram grandes amigos. Como para todo jovem, estudos, farras, festas, tudo isso fazia parte da vida de vocês?

Samir – O Guido era uma pessoa normal, igual a todos nós; surfava, jogava bola, íamos a festas. Tivemos os nossos porres, as nossas brigas, as nossas paqueras, ele namorou, ficou noivo. Antes de entrar para o Seminário, ele era noivo de uma menina. Entretanto, teve um verdadeiro chamado e foi para o Seminário. Nossa vida sempre foi normal. Ele era mais ou menos como o Papa João Paulo II disse uma vez: ele era um santo de calça jeans. Nós íamos à igreja, íamos para o bar tomar cerveja, comíamos pizza e mesmo depois, quando Deus foi tocando o coração dele aos poucos, ele continuou indo para um barzinho tomar cerveja com a gente, mas aí já sabia a diferença entre o que era bom e o que era ruim, como “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. Guido foi uma pessoa que nunca mudou sua essência, era uma pessoa muito amiga, muito querida, com um linguajar sempre jovem, sempre carismático, alegre, disposto a perdoar e acolher, enfim, uma pessoa normal, nada de super-herói, como a gente às vezes imagina um santo, mas com um ideal diferente, com Deus no coração. Ele transmitia Deus em qualquer momento da sua vida.

Pascom – Como você disse, o Guido era uma pessoa normal, mas deve ter havido um momento em que você começou a perceber que ele estava diferente, que ele já demonstrava uma certa vocação ao sacerdócio, a viver uma vida em Deus.

Samir – Aos poucos, ele foi mudando. Ele sempre foi muito radical; pegava as maiores ondas, ultrapassava os limites no esporte, enfim, no que se refere à saúde ele sempre foi muito radical. Então ele foi aos pouquinhos se deixando encantar por Deus. Enquanto nós íamos à Missa uma vez por semana, ele já ia duas, três vezes. Aconteceu gradativamente, mas acho que o ponto forte foi quando, na Jornada Mundial da Juventude, em Toronto, nós estávamos a uma distância de uns 3 ou 4 km do Papa João Paulo II, e aí ele olhou para mim e disse: “Samir, o Papa olhou pra mim”. Eu disse que era impossível, pois o Papa estava a quilômetros de distância de nós, e ainda brinquei dizendo que de maluco a gente não discorda. Entretanto, ele insistiu, dizendo que o Papa havia olhado pra ele. Acho que ali foi um divisor de águas para o caminho santo que ele iria trilhar, porque ele saiu transformado dali, com o olhar diferente, já falando coisas mais fortes, pensando em largar tudo e servir a Deus, empregar a medicina a serviço de Deus, cuidando da população mais carente até o fim de sua vida. Então acho que foi esse evento na JMJ que marcou muito a sua vida, embora ele já estivesse indo à Missa, à igreja. Mas, a partir de então, ele decidiu seguir um caminho mais radical.

Pascom – O Guido fazia um trabalho com moradores de rua, junto às irmãs da Caridade de Madre Teresa de Calcutá. Como era esse trabalho?

Samir – Ele tinha um carinho muito grande por essas pessoas. Ele chegava perto de um morador de rua doente, com doenças físicas e espirituais, então ele dava carinho abraçava. Às vezes, a pessoa nem recebia muito bem, xingava, mas ele continuava amando, até que a pessoa acabava se entregando àquele amor. As pessoas da rua conheciam Guido pelo nome, diziam que ele era “o meu grande médico”. Ele tratava um morador de rua como tratava a todos, com o mesmo amor, sem distinção de raça, de classe social e de idade, nada. O amor que ele dava para qualquer pessoa era único.

Pascom – Como é para você saber que conviveu com um santo?

Samir – A cada dia a ficha vai caindo, a cada dia aparece uma coisa nova do Guido. Eu não imaginava que ele tinha fundado tantos grupos de oração, conversado com tanta gente. Fico pensando onde ele arranjou tempo para fazer tanta coisa. De vez em quando, aparecia uma pessoa que ele havia ido visitar, com quem havia rezado um Terço em casa. Era assim, a cada dia uma coisa nova. Eu me emociono toda vez que falo dele, por ter apertado sua mão, tê-lo abraçado.

Pascom – Você tem alguma história curiosa do Guido que o mostre já como uma pessoa especial, diferente?

Samir – Tem um fato interessante sim, que aconteceu em sua casa em Friburgo. A mais ou menos 1 km de distância da casa há uma Capelinha onde ele tinha o costume de ir rezar. Ele chegava às 6 horas da manhã para rezar e voltava às 23h. Lá não havia sinal para o telefone; aí a mãe dele ficava muito preocupada. Ele contou que, um dia, foi para a Capela fazer suas orações pela manhã e começou a chover muito. O tempo foi passando e foi ficando tarde. Então ele falou com Deus que tinha de ir embora. Entretanto, Deus lhe pediu que ficasse mais um pouco. Mais uma vez ele disse a Deus que iria embora, porque sabia que sua mãe estava muito preocupada. Então ele saiu e pensou em como iria fazer para sair dali com tanta chuva, e mais uma vez ouviu Deus lhe falar: “Você não crê no Meu poder?” Então ele saiu e, quando chegou a casa, estava completamente seco. Era como se só tivesse chovido ao redor dele.

Pascom – O Guido ouvia e falava com Deus?

Samir – Sim, o Guido sabia a Bíblia inteira, e nem ele mesmo compreendia como era possível. Dizia que Deus mandava que ele falasse aquele capítulo e versículos e ele obedecia. Ele conhecia toda a Bíblia, sem saber como.

Pascom – Neste mundo que oferece tantas coisas ruins para os jovens, como o Guido pode ser uma referência para cada um deles?

Samir – Eu acho que o Guido, pela sua vida, pela maneira como ele viveu e conviveu com as pessoas, veio mostrar que o santo não precisa necessariamente usar uma batina; a santidade está ao alcance de todos. O jovem não precisa deixar de pegar sua onda, deixar de sair com seus amigos, deixar de namorar, deixar de se divertir de uma maneira sadia e se desviar da santidade. A santidade ele encontra em todo lugar; Deus se encontra no lugar onde você O colocar; então, se você escolhe a opção de se desviar de bons caminhos, sabe que ali Deus não vai estar. Isso não quer dizer que é preciso deixar de fazer todas as coisas e se tornar careta, não! A santidade não é ser careta, a santidade é você ser realmente feliz, uma felicidade eterna, jovial, uma alegria infinita que é o amor de Deus, e Deus não se restringe a um lugar fechado; pelo contrário, o amor de Deus está nos seus amigos, na sua família, no seu esporte. É preciso viver de maneira sadia. Guido veio mostrar que, com o Espírito Santo, pode-se viver com seus amigos, familiares, no trabalho etc. Enfim, que se pode ser um santo de calça jeans e camisa de malha.

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