O que o Papa Leão e o pai da genética têm em comum?
Alguns dizem que fé e ciência são incompatíveis, mas existem muitos exemplos surpreendentes que provam o contrário. No decorrer da história da Igreja, diversos pensadores, tanto religiosos quanto leigos, demonstraram que, na verdade, elas caminham lado a lado. Como já observava João Paulo II em sua Encíclica Fides et Ratio, são como “duas asas pela qual o homem chega ao conhecimento da verdade”.
Seu recém-eleito sucessor, Leão XIV, o primeiro papa a usar um Apple watch e escrever seus próprios e-mails, assume a cátedra de Pedro em um mundo cada vez mais transformado por avanços e desafios decorrentes do conhecimento científico, como tecnologias de inteligência artificial e consequências das mudanças climáticas. Para conduzir a Igreja, uma aliança harmônica entre fé e razão nunca foi tão necessária. Matemático por formação e agostiniano, o Papa talvez tenha se deparado com a história de um antigo membro de sua ordem religiosa que viveu nos tempos do último Papa Leão. Para os desavisados, um simples padre de uma pequena cidade europeia; para quem o conhece, um gigante da ciência, pai de uma disciplina que mudou o mundo. Seu nome é Gregor Mendel.
No jardim da abadia
Johann Mendel nasceu em 1822, no pequeno vilarejo de Hynčice, ao norte do Império Austríaco, atual República Tcheca. Quando jovem, ajudava sua família no campo e trabalhava com jardinagem e apicultura. Estudou filosofia e física na Universidade de Olomouc antes de ingressar como noviço na Abadia Agostiniana de São Tomás, na cidade de Brno, em 1843, assumindo o nome de Gregor. Foi ordenado sacerdote em 1847 e durante mais de uma década trabalhou também como professor de física, ao mesmo tempo que continuava sua formação acadêmica em diversas instituições.
Sua fama (ou medo, no caso da maioria dos estudantes de ensino médio) se deve aos experimentos que fez durante seu tempo livre no período de 1856 a 1863. Durante esses oito anos, intrigado em desvendar o mistério da hereditariedade, Mendel se esforçou intensamente em criar e cruzar milhares de plantas de ervilha na estufa recém-construída no quintal de sua abadia. Sua habilidade em jardinagem e a disciplina de sua ordem se mostraram de grande proveito, anotando meticulosamente o resultado do cruzamento de plantas com diferentes características: uma baixa com outra alta, uma com sementes amarelas com outra de sementes verdes, e várias outras; notou que a herança era passada em unidades (que hoje conhecemos como genes) e seguia uma razão calculável. Plantas baixas cruzadas com plantas altas não geravam uma planta média, e duas plantas com sementes amarelas às vezes geravam uma com sementes verdes. O mistério da hereditariedade, sem nenhuma explicação científica desde Aristóteles, havia sido decifrado. Com base em suas observações, descreveu as chamadas leis de Mendel, ensinadas nas escolas até hoje, que iniciaram a genética moderna.

Estufa em que Mendel desenvolveu suas pesquisas com o cruzamento de ervilhas. Ao fundo, observa-se a Abadia Agostiniana de São Tomás.
Mendel escreveu um artigo intitulado Experimentos em hibridização de plantas com os resultados de suas pesquisas com ervilhas e apresentou-o duas vezes à Sociedade de História Natural de Brno, em 1865. A pouca atenção dos presentes só não foi menor que a recebida quando o publicou em uma desconhecida revista científica local no ano seguinte. Sua pesquisa inovadora passaria quase quatro décadas no completo desconhecimento antes de ser redescoberta por cientistas em 1900, provocando uma verdadeira revolução científica que escreveria o nome de Mendel para sempre nos livros de biologia, tornando-o conhecido como “o pai da genética”.
Após esse período agitado, em 1867 o sacerdote agostiniano de Brno se tornou abade e passou a dedicar-se cada vez mais a funções administrativas da abadia, encerrando lentamente suas pesquisas científicas. Nos anos seguintes, ainda manteve alguns experimentos, cruzando plantas do gênero Hieracium na tentativa de replicar seus resultados com ervilhas, mas sem sucesso. Ainda com interesses em biologia, física e meteorologia, Mendel faleceu em 6 de janeiro de 1884 e não foi reconhecido em vida por suas pesquisas ou como um grande cientista.
DNA católico
É bem provável que o mais novo sucessor de Pedro conheça a história do célebre padre cientista de sua ordem (ou ao menos tenha estudado suas leis nas aulas de biologia da escola). De qualquer forma, seus predecessores de fato o conheciam. Em seu discurso para os participantes do encontro para a comemoração do centenário da morte do abade Gregor Mendel, João Paulo II disse:
A exemplo do seu mestre, Santo Agostinho, seguindo a própria vocação pessoal, Gregor Mendel, na observação da natureza e na contemplação do seu Autor, soube num mesmo impulso unir a pesquisa da verdade com a certeza de a conhecer já no Verbo criador, luz semeada em cada homem e refulgente no íntimo das leis da natureza, que o estudioso pacientemente decifra.
E Bento XVI, discursando para a assembleia plenária da Pontifícia Academia para a Vida, 25 anos depois:
Desde quando, nos meados do séc. XIX, o abade agostiniano Gregor Mendel, descobriu as leis da herança das características, a ponto de ser considerado o fundador da genética, esta ciência deu realmente passos de gigante na compreensão daquela linguagem que está na base da informação biológica e que determina o desenvolvimento do ser vivo.
O último discurso recorda outra curiosidade na história de fé e ciência que também envolve genética. A Pontifícia Academia para a Vida, instituição multidisciplinar da Igreja que busca construir uma consciência mais profunda do valor da vida a partir do diálogo com especialistas de bioética, teve um grande cientista, em processo de canonização, como seu presidente. Fundada por João Paulo II em 1994, seu primeiro presidente foi escolhido a dedo pelo Santo Padre: um amigo próximo, médico e geneticista chamado Jérôme Lejeune.
Nascido nos subúrbios de Paris em 1926, Lejeune se formou em medicina e, no começo da década de 1950, entrou para um grupo de pesquisa que tratava crianças com síndrome de down. Em 1958, ao estudar células cultivadas de pacientes, Lejeune e sua equipe notaram que havia uma anormalidade no número de cromossomos: uma cópia extra do cromossomo 21 – condição chamada trissomia do 21 – que se mostraria como a causa genética da síndrome de down. Apesar de fundamental, a descoberta teve consequências indesejadas para Lejeune, que sonhava em encontrar uma cura. Com o desenvolvimento do diagnóstico pré-natal, acabou sendo usada com fins eugênicos para o aborto de fetos com trissomia do 21. Incansável defensor da vida humana e opositor do aborto, o cientista francês dizia que “a qualidade de uma civilização é medida pelo respeito para com os mais fracos”, e durante toda sua vida defendeu esses ideais, sempre em comunhão com a doutrina católica. Em sua prolífica carreira, ainda descreveu outras doenças causadas por aberrações cromossômicas, como a síndrome cri-du-chat, e recebeu diversas honrarias científicas. Lejeune faleceu poucas semanas após sua nomeação como presidente da Pontifícia Academia para a Vida, em 3 de abril de 1994, aos 68 anos. Em 2021, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto sobre suas virtudes heroicas, conferindo-lhe o título de venerável.

Lejeune em seu laboratório.
O grande mestre de Hipona
Ao recordar a vida de Mendel e Lejeune, assim como a de muitos outros cientistas católicos, não nos surpreende que o Papa Leão tenha visitado o Observatório Astronômico do Vaticano – um dos mais antigos institutos científicos do mundo – e conversado com o ex-astronauta Buzz Aldrin, em comemoração ao aniversário da chegada do homem à Lua em 1969. Na verdade, estranho seria se ele não tivesse, pois o grande mestre de sua ordem, Santo Agostinho, acreditava que fé e razão eram complementares e que o estudo da criação através da razão poderia ser usado para buscar a Deus. Como disse em seu Comentários aos Salmos:
A beleza da terra constitui certa voz da terra em sua mudez. Observas e vês sua beleza, vês sua fecundidade, vês suas forças, como brota a semente, e como muitas vezes produz o que não foi semeado; vês e em tua reflexão de certo modo a interrogas; o próprio exame é uma interrogação. Quando pesquisares com admiração, e perscrutares e descobrires sua grande força, grande beleza, preclara virtude e considerando que em si e por si não pode ter tal vigor, logo te ocorre ao pensamento que isso não pode provir de si, mas apenas do Criador. E se chegas a esta conclusão, é uma voz de confissão, louvor ao Criador. Por acaso, ao contemplares toda a beleza deste mundo, esta própria formosura não parece responder-te a uma só voz: Não fui eu que me fiz, mas foi Deus? (Santo Agostinho, 2014, 144, 13).
Inspirados pelos ensinamentos desse doutor da Igreja, cuja influência atravessou séculos e impactou profundamente o pensamento ocidental, Gregor Mendel e Robert Prevost construíram sua vida religiosa. Um foi gigante na ciência, pai de uma disciplina que também impactou, e continuará impactando, profundamente nossas vidas. Outro está sendo um gigante na fé, pastor da Igreja de Cristo, que precisará reconciliar a doutrina católica com questões cada vez mais complexas trazidas pelo desenvolvimento científico. Não é necessário se deter na descrição da vida de Agostinho, pois suas contribuições falam por si só. Autor da primeira regra monástica do Ocidente, escrita no ano 400, ele inspirou a fundação da Ordem dos Agostinianos em 1244. Sua extensa obra e história de conversão inspira cristãos e não crentes até hoje, sempre nos lembrando que nunca é tarde para amar a Deus, a “beleza tão antiga e tão nova”.
Como as fitas complementares da molécula DNA, as relações entre fé e ciência se entrelaçam e unem as vidas de dois jovens, um de Chicago e outro de um pequeno vilarejo da Europa Central. Não por ligações de hidrogênio, mas pelo exemplo de um grande santo que viveu muitos séculos antes, cujo dia hoje comemoramos.
Santo Agostinho, rogai por nós!

Pintura de Santo Agostinho do século XVIII restaurada e entregue ao Papa por uma delegação dos museus vaticanos.
Referências
https://www.institutlejeune.org/en/who-are-we/who-was-professor-jerome-lejeune.html.
http://www.newadvent.org/cathen/10180b.htm
Santo Agostinho, santo. Patrística – Comentário aos Salmos (101-150). Patrística Ser, v. 9. São Paulo: Paulus, 2014.
Redação: Lucas Rocha
Revisão textual: Rochelle Lassarot